Invasão e resistência - Os 90 anos da derrota de Lampião no confronto com o povo de Mossoró -Parte VII

INVASÃO E RESISTÊNCIA - OS 90 ANOS DA DERROTA DE LAMPIÃO NO CONFRONTO COM O POVO DE MOSSORÓ –"INVASÃO E RESISTÊNCIA: A HORA FATAL"- PARTE VII
Por José de Paiva Rebouças

O dentista Antônio Brasil foi o primeiro a avistar os cangaceiros com seu binóculo, desde uma das torres da igreja de Santa Luzia. De lá, deu alarme aos que estavam entrincheirados na agência do telégrafo. Padre Mota correu para a praça da matriz e mandou badalar os sinos, sendo seguido pelas outras igrejas.

Quando o barulho cessou, a cidade silenciou aguardando o primeiro ataque. "Homens apostos retinham a respiração. Olhos grudados nas armas à espera dos milicianos do terrível cangaceiro", conta Sérgio Dantas.

Por volta das quatro da tarde, começou a cair uma neblina seguida de um vento frio. Os cangaceiros esgueiravam-se entre as primeiras da casas da cidade e desciam pelo Córrego do Barbosa com bastante discrição.

Logo, chegaram à linha férrea à parte posterior da capela de São Vicente, próxima às trincheiras principais. Diferente de hoje, o lugar tinha pouquíssimas residências. Ali, o primeiro grupo se dividiu em dois, sendo uma parte comandada por Sabino e a outra por Massilon. Pouco atrás vinha Lampião com a segunda coluna.

No meio do caminho, entre a linha férrea e a casa do coronel Rodolfo, erguia-se imponente a residência de Joaquim Perdigão, genro do intendente. Arrobaram a casa para saqueá-la e usá-la de trincheira enquanto estudavam a área.

Massilon seguiu na esperança de surpreender a casa de Rodolfo, onde hoje é a Prefeitura de Mossoró, entrando pelos fundos. Lampião marchou em direção ao cemitério.

Bem próximo da capela de São Vicente, Sabino saiu na rua para ver melhor a trincheira. Com a farda da Guarda Nacional, foi confundido por alguns instantes com um militar. Mas logo alguém descobriu.

Tiros partiram de todos os flancos. Ágil, o cangaceiro saltava de um lado para o outro sem ser atingido. Com pouco, uma bala perfurou seu chapéu e outra arranhou a perneira. Então ele recuou.

Os homens do seu bando, presos entre as trincheiras da capela de São Vicente e a casa de Rodolfo, ficaram em desvantagens e tiveram de esperar o fogo cessar. Massilon, um pouco mais atrás, chegou pelos fundos da casa do intendente. Tentou arrombar a porta da garagem, mas o piquete reagiu.

Tiros acertaram a parede e a porta de madeira. Estilhaços atingiram um cangaceiro. Nas proximidades da estrada de ferro, os homens de Lampião estavam em desvantagem. A dificuldade de chegar às trincheiras os obrigou recuar do fogo e buscaram abrigo nos jazidos do cemitério.

Colchete e Jararaca

As trincheiras pareciam intransponíveis. Os cangaceiros nunca tinham encontrado tamanha resistência. Os três dias de arrastão pela região do alto e médio Oeste foram suficientes para que a cidade organizasse bem as trincheiras. Nem a desconfiança de Lampião previa tamanha força.

Colchete, no entanto, não tinha intenção de desistir. Esgueirando pelas esquinas, usou a mureta da casa de Alfredo Fernandes como proteção e com paciência observou a posição dos atiradores. Num instante de delírio, correu desprotegido em busca dos fardos de algodão.

"Levava punhal à boca e rangia os dentes em atitude feroz", conta Sérgio Dantas. "Tiro certeiro partiu do palacete e atingiu em cheio seu rosto suado", completa.

Colchete se estrebuchou, antes de cair. Um segundo tiro lhe atingiu as costas quando ele já estava fora de combate. Ali mesmo ficou sem se mexer.

Diante do ocorrido, Sabino ordenou a retirada. Concluiu que seria impossível vencer a batalha. O grupo saiu correndo e atirando contra as trincheiras para a própria cobertura.

Ainda embriagado, Jararaca não escutou a voz de comando. Aguardou escondido até não ouvir mais tiros. Se apoiou no mesmo muro usado por Colchete na tentativa pouco inteligente de apanhar os pertences do companheiro. Na trincheira, um atirador viu a movimentação e esperou o momento certo.

"Disparo certeiro abateu Jararaca. Caiu desacordado por cima do corpo fétido de Colchete", narra Sérgio Dantas. Ficou assim um tempo, até redobrar a consciência. Ferida feia se abriu no peito. Tentou rastejar, mas logo percebeu que seus companheiros abandonaram a zona da guerra.

"Sabino, estou ferido! Moreno, socorro! Me ajude, Sabino!", teria gritado Jararaca. Mas não adiantou. Os homens não voltariam para acudi-lo.

Com esforço, levantou-se e tentou fugir no sentido do cemitério para onde estavam indo seus companheiros. Novo tiro vindo da trincheira de Rodolfo acertou sua perna. Caiu outra vez.

O cemitério como trincheira dos derrotados

Com a ordem de retirada, Massilon correu no sentido da estrada de ferro. Topou com a trincheira da Estação e não aguentou o fogo. Voltou pela cidade e se entrincheirou na União dos Artistas. Ensaiou breve resistência com seu grupo. Do cemitério, Lampião tentou nova ofensiva, mas foi em vão.

Mandou o cangaceiro Luiz Pedro e outros cabras ajudarem Massilon. Não deu resultado. O fogo contra eles era intenso e sem condições de revide. Pelo cemitério, Sabino avisou das baixas. "Vamos embora. Colchete e Jararaca estão mortos". Lampião reconhecera a derrota e ordenou a retirada.

Pediu que Sabino fosse buscar Massilon e Luiz Pedro. Após encontrá-los, os guiou contra o fogo com alguma dificuldade. O piquete da Estação não dava trégua. Com esforço, os cangaceiros chegaram ao cemitério e sumiram pelo mato.

As trincheiras permaneceram ativas. O tenente Abdon Nunes de Carvalho, na companhia do sargento Pedro Sílvio e outros civis, resolveu ir até o cemitério. Logo voltou com a notícia de que os bandidos tinham fugido.

Após a notícia, os homens começaram a deixar as trincheiras. O corpo de Colchete estendido no chão atinou a curiosidade do povo, mas também a fúria de muitos. Arrastaram o cadáver pelas ruas até a igreja matriz. No caminho arrancaram  uma orelhas e lhe deram uma cutilada de arma branca na altura das costelas.

Continuaremos amanhã com o título:
"RETORNO AO SACO E A FUGA DOS CANGACEIROS"

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http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2017/06/invasao-e-resistencia-os-90-anos-da_27.html

Fonte: Jornal De Fato
Revista: Contexto Especial
Nº: 8
Páginas: 31,32,33,34,35 E 36.
Ano: 6
Cidade: Mossoró-RN
Editor: José de Paiva Rebouças
E-mail: josedepaivareboucas@gmail.com
Ilustrado por: José Mendes Pereira
http://blogdomendesemendes.blogspot.com



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