ARABISMOS NO VAQUEIRO NORDESTINO



 Montado em seu alazão, que é literalmente o aportuguesamento da palavra árabe para cavalo, ‘’al-hisan’’, a indumentária equestre arábigo-andaluza culminou numa síntese única que pode ser vista no traje do vaqueiro nordestino dos pés à cabeça, como mais um legado mouro na construção cultural do Nordeste brasileiro. O chapéu pode ser de formato napoleônico, mas carrega as insígnias islâmico-ibéricas, como a flor quadripétala, que simboliza a união entre os céus e a terra, e foi encontrada nos palácios omíadas de Khirbat al-Mafjar na Jordania e Medinat az-Zahra em Cordoba, assim como em outros vestígios de al-Andalus, e a estrela de oito pontas, i𝙨𝙗𝙖𝙧𝙮𝙖 ou zuhara em árabe, que simboliza a ascensão do califado e decorava suas moedas. Em seguida traja o gibão, termo derivado do espanhol jubón, e por sua vez do árabe juba, que é a longa casaca de couro que o protege nas pegas de boi, e que um dia também protegeu seus ancestrais mouros. Esta juba foi trazida à Ibéria pelos árabes na Idade Média, e foi adotada por reis e nobres cristãos em imitação de sultões e emires, como símbolo de status. O gibão é sempre decorado com a arte em couro lavrado, composta por desenhos e motivos arabescos da arte mudéjar conhecida como ‘’guadameci’’, pois sua origem está na cidade líbia de Gadamés no Norte da África. Em seguidas temos o safão, ou ‘’zahón’’ em espanhol, que os lexicografias divergem quanto a qual palavra árabe lhe deu origem, se o saqún ou safun, mas que de qualquer forma define a perneira equestre do pastoreio árabe-ibérico, e que se espalhou não só na América portuguesa e espanhola inteira, como se tornou o símbolo do cowboy americano. E para selar a armadura do guerreiro da Caatinga que surgiu no deserto do outro lado do Atlântico, temos as alpercatas, calçado origem arábico berbere que foi levado para a Espanha medieval pelos muçulmanos e posteriormente para o sul da França.

Seu nome deriva do árabe al-barghat, devido ao calçado ser originalmente produzido a partir da fibra “albha” encontrada no Marrocos. Outros arabismos encontram-se nos nomes de seus apetrechos, como o alforge, a algibeira e o matulão, assim como na arte da cutelaria, em cujos punhais apresentam pomos globulares com alongamentos no topo ou pequenos botões, que são uma característica das espadas árabes andaluzes, assim como as laminas de folha estreita no início e larga no final da ponta, seguindo o modelo conhecido como “sarraceno” ou “mourisco”.

Bibliografia:
- FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala.
- NEIVA, Suria Seixas. Desenhos de couro: registro e memória dos desenhos no encouramento do vaqueiro sertanejo.
- Compendio de indumentaria española, con un preliminar de la historia del traje y el mobiliario en los principales pueblos de la antigüedad.
- Arabismos documentados em Ataliba, o Vaqueiro.
- Glosario árabe español de indumentaria según el Kitab al-Mujassas de Ibn Sidah
- Iconotropy and Cult Images from the Ancient to Modern World.
- ‘’Un estudio en torno a la palabra «zahón»’’ Elena Pezzi Martínez
- Franklin Pereira, «O couro lavrado de estética mudéjar na Casa-Museu e Fundação Guerra Junqueiro – memórias do al-Andalus em terras portuguesas»
-Câmara Cascudo, ‘’ Mouros, franceses e judeus - Três presenças no Brasil’’
- Araujo, Manoel Deisson Xenofonte. Sobrevivências da faca jardineira: um estudo sobre a cultura material produzida pela cutelaria da família Pereira no Cariri / Manoel Deisson Xenofonte Araujo. – Recife, 2017.
- Lorente, J . J . Rodriguez. THE XVth CENTURY EAR DAGGER. ITS HISPANO-MORESQUE ORIGIN. Consejo Superior de Investigaciones Científicas.
- Bruhn de Hoffmeyer, Ada . Arms & Armour in Spain: A Short Survey, Volume 1. Editorial CSIC - CSIC Press.
-João Baptista, ‘’Léxico Português de Origem Árabe’’

FONTE: @mansur.peixoto

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