A Lenda do Sangue de Feitosa na Fazenda Porteiras .O Pacto e a Semente da Traição
No coração do sertão do Ceará, no ano de 1925, a vasta e imponente Fazenda Porteiras era o centro de um poder perigoso. Seu proprietário, o Coronel Eudálio Feitosa, era um dos homens mais influentes e temidos da região. Contudo, seu verdadeiro poder vinha de uma aliança secreta: o Coronel era o maior coiteiro de Lampião no estado. Em troca de proteção e do silêncio de autoridades locais que ele controlava, Eudálio fornecia ao bando de Virgulino Ferreira da Silva suprimentos vitais, munição e um porto seguro para descanso. A Fazenda Porteiras era o refúgio inviolável; Lampião jamais tocaria na propriedade ou na família de seu leal fornecedor. O pacto, porém, estava prestes a ser testado. Em uma tarde de sol a pino, a sombra da Lei recaiu sobre a fazenda com a chegada da volante comandada pelo Tenente Pires de Alencar. Conhecido por sua truculência para com o povo sertanejo e por sua crueldade implacável contra coiteiros, Pires confrontou o Coronel Eudálio. Com promessas de perdão, proteção e ameaças de ruína total, o Tenente "convenceu" o Coronel a entregar a cabeça do Rei do Cangaço. A oportunidade perfeita seria no mês seguinte, quando Lampião estava agendado para reabastecer-se. O plano era simples e fatal: a volante ficaria escondida na caatinga de ao redor da casa grande, não muito perto, pra não despertar suspeita e aguardando um sinal de Eudálio para emboscar e matar Virgulino. O Coronel Eudálio Feitosa quebrou seu juramento, trocando o pacto com o chefe dos cangaceiros pela sobrevivência nas mãos da Lei. Ele esperava salvar sua vida; em vez disso, selou o destino de toda a sua semente.
O Aviso e a Vingança Antecipada
O sertão, no entanto, tem seus próprios ouvidos. Mal o Tenente Pires se afastou, a notícia da traição voou. Um informante leal a Virgulino, agregado do Coronel, chegou ao seu esconderijo com a descrição exata da armadilha que o esperava na Porteiras. A fúria de Lampião foi fria e metódica. Ele não fugiu; ele antecipou sua chegada a Fazenda Porteiras. Ao raiar do dia seguinte, antes mesmo que o sol pudesse dissipar a neblina da madrugada, Virgulino e seu bando irromperam na Fazenda. A surpresa foi total. A casa grande foi cercada, e toda a família do Coronel — homens, mulheres e crianças — foi capturada e amarrada no pátio central. Seus jagunços não tiveram tempo de agir e também foram dominados. O Coronel Eudalio, pálido, ajoelhou-se diante do cangaceiro, suplicando pela vida de seus entes. A resposta de Lampião foi a sentença final, cravada como um punhal:
> "Coronel Eudalio Feitosa, você trocou a honra da nossa palavra pela promessa de um macaco da volante. Quem me trai, morre debaixo do meu facão. E o preço de minha vida é toda a sua semente.">
Seguiu-se um banho de sangue indescritível. Homens, mulheres e crianças foram mortos um a um diante dos olhos do Coronel. Ninguém foi poupado. A casa grande da Fazenda Porteiras ficou banhada no sangue escuro e pegajoso da família Feitosa, um macabro sacrifício à fúria do Rei do Cangaço. Satisfeito com a lição, Lampião partiu rapidamente com seu bando, deixando a morte e o horror para trás, e nunca mais voltou aquelas terras. Quando Pires de Alencar foi avisado da tragédia, correu célere a Fazenda, e o que encontrou lá foi tão somente sangue e morte. Nada mais restava na Fazenda Porteiras a não ser os corpos insepultos do Coronel Eudalio, sua família e seus homens. Pires de Alencar, mesmo acostumado aos horrores da guerra do Cangaço, fica profundamente abalado com a cena, e promete ali diante daquele quadro dantesco perseguir e matar o Rei do Cangaço, promessa que jamais cumpriria. Ali, naquele momento, o que restava, era dar sepultura a todos. Nada mais podia ser feito.
A Maldição Eterna
Até hoje, a antiga casa grande emite gemidos e sons de agonia e desespero nas noites de lua cheia. São as vozes dos Feitosa, revivendo a cena macabra, o eco da matança que se repete eternamente. Os transeuntes que tentam pernoitar no casarão logo fogem, horrorizados com o choro de mulher e os gritos de crianças que parecem vir de dentro das paredes.
Assim, a Fazenda Porteiras permanece marcada: não apenas um dos crimes mais bárbaros do Rei do Cangaço, mas também o local onde a traição custou caro, e a covardia da Lei gerou uma maldição que se recusa a ser silenciada pelo tempo.

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