Eu aprendi cedo que amizade no sertão não nasce de promessa bonita, nasce do barro. Do barro que racha no verão, que vira lama no inverno curto, que suja o pé e sustenta a casa. É nele que a gente finca a vida. Olhando essa casa de parede cansada e teto de palha, eu me vejo ali, encostado na sombra curta do fim da tarde, rindo de coisa pouca, porque quando tudo falta, o riso vira luxo compartilhado.
A gente conversava apoiado na parede como quem se apoia um no outro. Não era conversa grande, era fala miúda, dessas que cabem na mão. Um lembrava a seca antiga, o outro lembrava a chuva que quase não veio. E no meio da lembrança dura, surgia a piada, o comentário atravessado, a gargalhada que espanta a tristeza por alguns minutos. Amizade aqui é isso: dividir o peso do dia para ele não esmagar ninguém sozinho.
Eu sempre digo que o barro ensina. Ensina a esperar, a remendar, a aceitar que a beleza não brilha, resiste. A casa pode ser torta, a roupa pode estar gasta, mas o homem em pé, com um amigo ao lado, é uma espécie de milagre cotidiano. A criança espiando pela porta aprende sem saber: aprende que o mundo é áspero, mas que dá para enfrentá-lo se houver alguém com quem dividir o silêncio.
Viver no Nordeste sofrido não me fez menor, me fez inteiro. Eu sou feito desse chão duro, desse céu largo, dessa amizade que não pergunta se tem, apenas fica. Quando o sol baixa e a conversa acaba, eu sigo sabendo que amanhã o barro continua ali, esperando. E junto com ele, a vida, teimosa, insistindo em florescer do jeito que dá.
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