Havia um tempo em que o bairro não começava na esquina — começava na porta da venda.
A pequena bodega, a mercearia de piso gasto, o armazém de balcão alto e caderneta pendurada num prego eram mais do que comércio: eram extensão da casa da gente. Quem viveu nas cidades do interior sabe. A sineta na porta anunciava a entrada como quem diz “cheguei”, e lá de trás vinha a voz conhecida do seu Basílio , da dona Alacoque, do casal que sabia o nome de cada freguês e o gosto de cada família.
As prateleiras eram altas, de madeira escurecida pelo tempo, e guardavam latas coloridas, pacotes de feijão em sacas abertas, garrafas de vidro alinhadas com cuidado. Havia cheiro de café moído na hora, de querosene, de sabão em barra. O dono cortava o queijo na hora, fatiava o presunto na máquina barulhenta, pesava o açúcar no prato da balança com pesos de metal que pareciam pequenos tesouros.
Mas o que fazia da venda um mundo era a convivência.
A mãe mandava o filho “ali na venda” com uma lista dobrada no bolso e a recomendação: “Não esquece de pedir pro seu Basílio anotar no caderno”. O fiado não era dívida — era confiança. A caderneta era quase um documento de família. Ali se registravam as semanas boas e as mais apertadas, sempre com a certeza de que no fim do mês tudo se ajeitava.
Os proprietários sabiam das histórias antes mesmo que virassem notícia. Sabiam quem estava doente, quem tinha arrumado emprego novo, quem ia casar. Perguntavam pelos filhos pelo nome, guardavam o doce preferido atrás do balcão, separavam a melhor laranja para a freguesa mais antiga. No Natal, às vezes aparecia um panetone “por conta da casa”. No São João, um sorriso mais largo e um “leva mais um pouquinho, isso aqui tá bonito demais”.
Era ali que os homens comentavam o jogo do domingo, que as mulheres trocavam receitas e confidências, que as crianças gastavam as moedas em balas coloridas guardadas em potes de vidro. A venda era ponto de encontro, era jornal falado, era sala de visitas improvisada. Não havia pressa. Havia prosa.
Então vieram os grandes supermercados.
Vieram com corredores largos, carrinhos de metal, luz branca e música ambiente. Vieram com promoções gritadas em encartes, com caixas rápidos, com etiquetas padronizadas. Trouxeram variedade, preço competitivo, conforto — é verdade. Mas levaram algo que não cabia em prateleira: o vínculo.
No supermercado, ninguém anota no caderno. Ninguém pergunta pela sua mãe pelo nome. Não se compra fiado, não se conversa sobre a falta da chuva que anda castigando a lavoura, não se ganha um pedaço de queijo “pra provar se tá bom mesmo”. Passa-se o código de barras, aproxima-se o cartão, e cada um segue seu caminho em silêncio.
As pequenas vendas foram fechando as portas devagar, como quem pede desculpa. Primeiro uma, depois outra. O balcão ficou vazio, a balança enferrujou, a sineta silenciou. E junto com elas foi embora um jeito de viver o bairro — mais próximo, mais humano, mais paciente.
Hoje, quando alguém mais velho passa por uma antiga porta de madeira já transformada em loja qualquer, há sempre um suspiro. Não é só saudade do lugar; é saudade do tempo em que comprar era também conviver. Em que a cidade do interior cabia inteira dentro de uma venda, e o mundo parecia mais simples porque tinha nome, rosto e confiança.
E no fundo, o que faz falta não é o açúcar pesado na balança antiga — é o doce da proximidade que nenhuma rede de supermercado conseguiu empacotar.
Foto da Internet
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