Religião: fé, dinheiro e silêncio
Por Roberto T. G. Rodrigues
Em algum ponto do caminho, algo parece ter se perdido. Talvez não a religião em si, mas o sentido mais básico do que ela deveria representar. Quando falamos de religião, do que estamos realmente falando? De fé? De comunidade? De ajuda ao próximo? Ou de estruturas que hoje se assemelham mais a empresas do que a espaços espirituais?
Durante muito tempo, a religião se sustentou sobre alguns pilares simples e universais: a fé acima de tudo, o desapego ao dinheiro e o compromisso genuíno com o próximo. Esses princípios não pertencem a uma denominação específica; atravessam culturas, livros sagrados e tradições. Ainda assim, olhando para o cenário atual, é impossível não perguntar: onde esses princípios foram parar?
Vivemos um mundo em crise — econômica, social, emocional. As pessoas estão mais ansiosas, mais perdidas, com medo do futuro. Em teoria, esse seria o terreno fértil para a fé florescer. Mas o que se vê, muitas vezes, é o oposto. A fé, que deveria acalmar, parece ter sido substituída pela culpa. A esperança, pelo medo. A espiritualidade, por regras e boletos.
Onde está a fé que conforta?
Onde está a fé que acolhe, em vez de julgar?
Será que ainda acreditamos em Deus ou apenas em instituições que falam em seu nome?
No Brasil, país historicamente religioso, cresce a percepção de que a espiritualidade passou a ter preço. Paga-se para entrar, para permanecer, para ser visto. Paga-se pela oração, pela bênção, pela promessa de prosperidade. Em muitos casos, não se trata mais de contribuir voluntariamente, mas de uma cobrança velada — ou explícita — que pesa sobre quem já tem pouco.
É impossível não se indignar ao ver pessoas que mal conseguem se alimentar destinando parte significativa de um salário mínimo para sustentar templos que não oferecem, em troca, nem um saco de arroz. Isso é fé ou exploração? Isso é caridade ou abuso? Em que momento ajudar a igreja passou a ser mais importante do que ajudar o irmão ao lado?
E os líderes religiosos? Quantos ainda vivem aquilo que pregam? Quantos realmente praticam, fora do púlpito, os valores que defendem diante de uma plateia silenciosa e obediente? A incoerência entre discurso e prática não mina apenas a confiança nas instituições — ela destrói a própria ideia de religiosidade.
Religião não deveria ser espetáculo.
Religião não deveria ser palco.
Religião não deveria ser um negócio.
Religião é o cotidiano. É a forma como se trata a própria família. É o respeito dentro de casa antes de qualquer discurso público. É a ética na rua, no trabalho, nas pequenas escolhas diárias. Tudo o que ignora isso se afasta do princípio mais básico da espiritualidade: viver aquilo que se acredita.
Diante desse cenário, muitos se afastam das religiões organizadas — não por falta de fé, mas por excesso de contradições. E talvez essa seja a pergunta mais incômoda de todas: será que o problema está em Deus… ou em quem fala por Ele?
Até que ponto seguimos uma religião por convicção, e não por medo?
Por que aceitamos pagar por aquilo que deveria ser gratuito?
Quem realmente se beneficia quando a fé vira mercadoria?
Estamos buscando espiritualidade ou apenas respostas fáceis para dores profundas?
Estas reflexões não pretendem impor verdades. São opiniões, inquietações, questionamentos — e cada pessoa tem o direito de seguir seu próprio caminho e sua própria verdade. Mas talvez seja justamente isso que esteja faltando: parar, pensar e perguntar.
Porque fé sem questionamento vira dogma.
E religião sem humanidade perde o sentido.
E você, leitor:
O que a religião representa hoje na sua vida?
Ela aproxima ou afasta?
Liberta ou aprisiona?
Sobre o autor:
Roberto T. G. Rodrigues é escritor, poeta e autor de Golandar, o Paladino, entre outras obras.
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