A ODISSEIA DA PRATA NO CEARÁ
Em 1649, a Companhia das Índias Ocidentais, enfrentando grave crise financeira e a escassez de rendas no Brasil Holandês, organizou uma ambiciosa expedição rumo ao Ceará. O objetivo central dessa missão, liderada pelo administrador Mathias Beck, era reparar as finanças da Companhia através da exploração de supostas minas de ouro e prata que se acreditava firmemente existirem nos sertões das capitanias conquistadas. A expedição partiu do Recife em 20 de março de 1649 com uma flotilha de cinco embarcações e 298 pessoas, incluindo soldados e indígenas.
A crença na existência desses metais preciosos fundamentava-se em tradições de descobertas anteriores atribuídas a Martim Soares Moreno. Ao desembarcar na baía do Mucuripe e fundar o Forte Schoonenburch, Beck estabeleceu alianças com povos indígenas locais para facilitar a busca pelo filão mineral. Os trabalhos de exploração concentraram-se inicialmente no monte Itarema, ligado à Serra de Maranguape, onde o comandante acreditava estar o rastro da prata. Durante meses, Mathias Beck perseverou em um empenho que se revelaria ilusório, movido pela esperança diária de encontrar o metal que salvaria a colônia.
O diário de Beck detalha os preparativos e os percalços da jornada, desde a falta de água potável até incidentes como o surto de loucura do comandante Coster no Rio Grande, que obrigou a mudanças na estrutura de comando da missão. Apesar do esforço, a expedição nunca encontrou as minas prometidas. A ocupação holandesa no Ceará, iniciada sob o signo da mineração, acabou por se tornar uma tentativa de sobrevivência política e militar, marcada pela interação com os nativos e pela construção de fortificações.
O sonho da prata cearense foi subitamente interrompido em 1654, não pela exaustão de um minério que nunca existiu em abundância, mas pela capitulação definitiva da praça do Recife frente às forças luso-brasileiras, pondo fim ao domínio neerlandês no Nordeste.
Fonte: CARVALHO, Alfredo de. Diário da Expedição de Mathias Beck ao Ceará em 1649. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, 1903.
Imagens: "Siara" (Frans Post, 1645) em BARLAEUS, Gaspar. Rerum per octennium in Brasilia (1647); "Afteijckeninge Van het Fort Schoonenborc-De baij Mucuriba en den berg IJtarema gelegen in Siara" [Anônimo, 1649; Nationaal Archief]; "Planta do forte Schoonenborch da bahia de Mucuriba e do monte Itarema, situados no Siara" [Fortaleza] : Lith. Barbosa Primo e Cia. : Typ. Minerva de Assis Bezerra, [1903] & TERTO DE AMORIM. J. Trabalhos cartográficos sobre o Siara na Republiek. P. 264; Biblioteca Nacional (Brasil); Serra de Maranguape (Ceará).
O Brasil Holandês 1624-1654 (Facebook
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