Os ciganos do meu tempo de menino -Prof José Cícero

 Os ciganos do meu tempo de menino


Outra tradição antiga  que nunca esqueço é  a dos ciganos e a frequência com que chegavam todos os anos,  tanto na cidadezinha; ou seja; a Missão Velha    do meu tempo, quanto no povoado da Missão Nova, distrito onde morava a minha vó Zefinha, minha tia Alaide e os meus primos. De modo que, assim como as idas e vindas  dos circos e o "gritar palhaço" pela redondeza, os parques de diversão,  a festa do padroeiro e o teatro matuto do mamulengo sob   o título de "Casimiro coco", que tinha como palco os cantos de parede da sala da casa paroquial e a própria  residência do finado Júlio Vaqueiro. Portanto,  os grupos de ciganos eram um verdadeiro acontecimento muito apreciado por todos os meninos daquele  lugarejo esquecido no oco do mundo. Recordo que eles(os ciganos) não eram bem-vistos pela maioria dos nossos sertanejos contemporâneos. Posto que havia uma desconfiança visível, o que hoje denominamos de  pura ojeriza e  preconceitos. À debrudo isso, eu os achava tão bonitos e extraordinários... autênticos contos de fadas para meu juízo.  Os homens estranhos com grandes chapéus, botas de couro curtido, cordões de metais no pescoço e dentes de ouro na boca. Além de outros apetrechos esquisitos. Enquanto  as belas mulheres tinham jóias, anéis, pulseiras, laços de fitas  e outros  adornos enfeitando o corpo. Além de brilhos nos longos cabelos a contrastar com seus vestidos compridos, estampados e coloridos. Advinhas e trocadores... No mais das vezes ficavam arranchados no centro da vila nos antigos alpendres sob o telhado do quadro onde acontecia a feirinha do domingo. Tudo aquilo era para todos nós, os meninos matutos do lugarejo, um verdadeiro  espetáculo. Algo tão marcante e tão bonito  que até hoje permanece vivo nas nossas lembranças afetivas daqueles tempos bons e inesquecíveis. Recordo que outras vezes alguns grupos de ciganos  também ficavam sob as matas como à margem do riozinho que dava para o outro lado da vila de seu Joaca. E quando na cidade se abrigavam  debaixo da ponte do trem ou  mesmo sob a caixa d'água da estação, de onde eu também os observava do quintal da minha casa. Diziam que eles carregavam o alheio e que roubavam  coisas, animais e meninos. Embora nunca ficamos sabendo disso, de fato... Alguns tinham medo. Mas eu não. Muito pelo contrário, eu os adorava como se os fossem contos vivos de Júlio Verne e de Machado.

Sem dúvidas, os ciganos foram mais um dos povos tradicionais historicamente injustiçados neste país... Uma riqueza cultural inconteste da  seara  Rom, Sinti e Calon tendo chegado à  península Ibérica há mais de mil anos, vindo da Índia e de  Portugal para o Brasil no século XVI como degredados.

Porém,  como tudo passa na vida; agora fico a perguntar para mim mesmo: Quer fim levou todos os ciganos daqueles tempos idos? Onde tudo aquilo foi parar para sempre no ostracismo? Ficaram apenas a saudade remexendo como formiga  a memória;  margeando perigosamente o esquecimento total da nova gerarão. Razão porque agora mesmo aqui escrevo um tanto saudoso, essas reminiscências  sempre presente no meu imaginário. Coisas que vivi e que até hoje não têm preço. Porque esquecer também  é um descuido que cometemos com nos mesmos.  Um forma de nos permitir morrer junto com a nossa própria  história. Eu imagino.

prof. José Cícero 

Aurora - CE.

Imagen: net

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