Rasgar o currículo é o primeiro passo para continuar relevante Por Evandro Lopes, neuroestrategista e CEO da SLcomm*

 


Rasgar o currículo é o primeiro passo para continuar relevante

Por Evandro Lopes, neuroestrategista e CEO da SLcomm*

Há momentos em que a experiência deixa de funcionar como vantagem competitiva e passa a operar como zona de conforto. É exatamente esse o risco do presente. O problema não está no conhecimento acumulado, mas na crença de que ele permanece relevante por tempo suficiente para sustentar, sozinho, a empregabilidade e a autoridade profissional. Segundo o Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades atuais dos trabalhadores serão transformadas ou se tornarão obsoletas até 2030.

Quando quase dois quintos do repertório profissional perdem validade em tão pouco tempo, o currículo deixa de ser atestado de atualidade e passa, muitas vezes, a funcionar como registro de um passado que já não responde às exigências do agora.

Esse movimento vai além de uma simples disrupção tecnológica. O que está em curso é uma revolução sociotecnológica, porque as novas ferramentas não alteram apenas fluxos de trabalho ou processos produtivos: elas também remodelam comportamento, linguagem, relações de poder, padrões de consumo e expectativas sobre carreira. A transformação já não pode ser tratada como hipótese futura.

Dados da Microsoft em parceria com o LinkedIn mostraram, em 2024, que 75% dos trabalhadores do conhecimento já utilizam inteligência artificial no trabalho. Em outras palavras, a mudança não está chegando, ela já foi incorporada à rotina. Nesse contexto, competências que até ontem eram percebidas como diferencial rapidamente se tornam exigência mínima, corroendo a vantagem histórica de quem acreditava que tempo de mercado, por si só, garantiria relevância contínua.

É justamente por isso que a provocação contida na frase “rasgue seu currículo” causa tanto incômodo. Ela toca em uma das crenças mais arraigadas da vida corporativa: a ideia de que acumular títulos, diplomas e certificações equivale automaticamente a acumular valor. Só que o mercado já não opera mais sob essa lógica linear. O Workplace Learning Report, do LinkedIn, mostra que o desenvolvimento de carreira e a aquisição de novas competências passaram a ocupar posição estratégica na agenda das empresas, tanto para retenção quanto para adaptação.

Na mesma direção, o próprio Fórum Econômico Mundial vem reforçando que reskilling e upskilling deixaram de ser pautas acessórias e passaram a integrar o núcleo da competitividade empresarial. O ponto, portanto, não é desprezar formação acadêmica, MBAs ou certificações, mas abandonar a arrogância implícita na suposição de que esses marcos bastam para assegurar relevância em um ambiente que muda de forma contínua.

A dimensão humana dessa transição costuma ser tratada com menos atenção do que deveria. As empresas vivem uma aceleração sem precedentes, mas pessoas não se reorganizam emocionalmente na mesma velocidade dos softwares. Em 2025, a APA mostrou que 54% dos trabalhadores relataram impacto relevante da insegurança no emprego sobre seus níveis de estresse.

Ao mesmo tempo, o ambiente corporativo se tornou mais complexo também do ponto de vista geracional. Segundo o Fórum Econômico Mundial, cinco gerações convivem simultaneamente no mercado de trabalho. Isso ajuda a explicar parte do ruído que se instalou dentro das organizações. Não se trata apenas de um atrito entre juventude e senioridade, mas de um choque entre diferentes percepções de tempo, autoridade, estabilidade, ambição e aprendizado.

Nada disso significa, evidentemente, que a experiência tenha perdido importância. Em setores regulados, operações complexas e decisões estratégicas, repertório continua sendo ativo essencial. O equívoco está em imaginar que defender a experiência exige resistir à renovação.

Hoje, o líder mais valioso não é aquele que concentra todas as respostas, mas o que consegue aprender com velocidade, traduzir mudanças e reorganizar conhecimento coletivo diante da instabilidade. A pressão sobre a liderança já aparece, inclusive, nos indicadores de engajamento. A Gallup registrou, em 2024, queda no engajamento de gestores ao redor do mundo justamente no momento em que deles se exige mais mediação, mais clareza e mais capacidade de conduzir transformações.

Rasgar o currículo, portanto, não significa negar a própria trajetória nem descartar a biografia profissional construída ao longo dos anos. O verdadeiro sentido dessa expressão é outro: abandonar a ideia de que o passado, sozinho, é capaz de sustentar o futuro. Em períodos de transição histórica, destacam-se menos os que acumulam certezas e mais os que preservam curiosidade, plasticidade e disposição para reaprender. O profissional mais relevante será, cada vez mais, aquele que demonstra capacidade de revisão, adaptação e reconstrução de valor.

Diante de uma revolução que já redistribui relevância no mercado de trabalho, a pergunta que importa é simples: você quer ser reconhecido pelo que já sabe ou pela velocidade com que consegue aprender de novo?

*Evandro Lopes é CEO da SLcomm, o primeiro e único ecossistema de Neurocomunicação do Brasil - onde marcas, eventos e estratégias nascem com base em neurociência, não em achismos. Com MBA em Marketing pela ESPM e Fundação Dom Cabral, especialização pela São Paulo Business School, pós-graduação em Neuromarketing pelo IBN Brasil e mais de 20 mil horas de estudo em neurocomunicação cognitivo-comportamental, atua na interseção entre emoção, liderança, branding e performance. É palestrante provocacional, mentor de executivos, conselheiro consultivo e sócio fundador de empresas como a REVA – Automação as a Service.




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