"NASSAU E SUA “MAISON DU SUCRE”
As cartas trocadas entre João Maurício de Nassau e Constantijn Huygens, geralmente em francês, revelam na administração neerlandesa no Brasil a constante sobreposição entre negócios públicos, interesses privados e ambições pessoais. Segundo Simon Groenveld (2008), a correspondência do conde demonstra a “ambivalência” típica do século XVII, período em que “as questões particulares e públicas estavam misturadas”.
Em carta enviada do Brasil, em 17 de novembro de 1638, Nassau comunica ao secretário dos Orange, e seu antigo mentor: “Eu vos ofereço meus pêsames pelo falecimento de vossa esposa”. Logo depois, abandona o tom de condolência para informar sobre “o lucro obtido aqui em nome da Companhia [Neerlandesa] das Índias Ocidentais [WIC] durante meu primeiro ano como governador-geral”. Na mesma carta, conclui com uma observação doméstica: “como vai a construção de minha casa em Haia — a Mauritshuis?”
O tema reaparece de forma ainda mais reveladora em correspondência de 9 de maio de 1642, há exatos 384 anos. Nassau agradece notícias recebidas de Huygens e lamenta “que a construção de minha casa esteja andando tão devagar”. Em seguida, menciona ironicamente o apelido dado ao edifício pelos diretores da WIC: “Les seigneurs [Heeren XIX] da Companhia [das Índias Ocidentais] a chamam, cinicamente, de ‘Maison du sucre’ […]”. A expressão sugeria que a futura residência em Haia teria sido erguida graças às riquezas extraídas do Brasil açucareiro. O conde procura justificar-se, afirmando que enviara “a madeira tropical necessária bem como açúcar para os pagamentos”.
A situação demonstra como produtos coloniais circulavam não apenas como mercadorias atlânticas, mas também como instrumentos de prestígio aristocrático e financiamento pessoal. Ao mesmo tempo, a correspondência evidencia a centralidade econômica do açúcar pernambucano na sustentação material do projeto nassoviano e da própria imagem pública do conde na Europa.
Fonte: GROENVELD, Simon. A intenção era boa, mas o poder, muito pequeno. In: WIESEBRON, Marianne Louise (ed.). O Brasil em arquivos neerlandeses (1624-1654): documentos no arquivo da Casa Real e no Arquivo dos Estados Gerais. Leiden: Research School CNWS, 2008. p. 73-111.
Imagens: 't Huis van prins Maurits van Nassau (anoniem, ca. 1730-1736); Mauritshuis (2026); Constantijn Huygens (Michiel van Mierevelt, 1641); Johan Maurits van Nassau-Siegen (Jan de Baen, ca. 1688-1670).
O Brasil Holandês 1624-1654 (Facebook)
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