122 ANOS DE HISTÓRIA: EM 29 DE JUNHO DE 1904, OS RIFLES DE SANTO ANDRÉ DECIDIAM O DESTINO DO CRATO - Valdir José Nogueira de Moura
122 ANOS DE HISTÓRIA: EM 29 DE JUNHO DE 1904, OS RIFLES DE SANTO ANDRÉ DECIDIAM O DESTINO DO CRATO
O Sertão, bem se sabe, nunca foi terra de fronteiras nítidas. Para os grandes clãs que mandavam e desmandavam nas primeiras décadas da República, as divisas entre estados eram linhas imaginárias, facilmente apagadas pelo rastro de pólvora e pelo galope dos cavalos. O que importava era a teia das alianças, o sangue partilhado e, acima de tudo, o alcance dos rifles.
Em junho de 1904, essa lógica implacável cobrou o seu preço na tradicional comuna do Crato, no Cariri cearense.
Ali governava o coronel José Belém de Figueiredo. Chefe político local e vice-presidente do Ceará, Belém sentia-se seguro, respaldado pelo peso de suas ligações com a poderosa família Pereira do Pajeú. Mas, no tabuleiro de xadrez da política sertaneja, os desafetos de um homem viajam longe. Do outro lado do tabuleiro, guardando um rancor antigo e profundo contra os Pereiras, erguia-se a sombra da Fazenda Santo André, em Jardim Ceará na fronteira com o município de São José do Belmonte, Pernambuco.
Santo André era mais que uma propriedade; era uma fortaleza e uma viga mestra na disputa sangrenta entre os Carvalhos e os Pereiras. Seu senhor era Antônio Clementino de Carvalho, o temido belmontense Antônio Quelé. Dono daquele que era considerado o maior plantel de jagunços ao norte do rio São Francisco, Quelé tinha a capacidade de inclinar a balança do poder para onde bem entendesse, fornecendo braços armados para desempatar contendas em toda a região.
Quando o Crato entrou em ebulição, a geopolítica do Pajeú cruzou a fronteira. Durante três dias e três noites, o som dos tiros ecoou pelas ruas da cidade cearense, sitiando o poder estabelecido. De um lado, as forças de Belém de Figueiredo; do outro, as tropas particulares comandadas pelo coronel Antônio Luiz Alves Pequeno.
Antônio Luiz não marchava só. Ele contava com a retaguarda estratégica de seu primo, o combativo Monsenhor Afonso Antero Pequeno, pároco de Belmonte e Vila Bela, cuja batina não o impedia de se envolver no olho do furacão daquele conflito. E, o mais importante: os homens que apertavam os gatilhos sob o comando de Antônio Luiz haviam saído justamente dos domínios de Antônio Quelé. Foram os rifles da Fazenda Santo André que ditaram o ritmo do combate.
No dia 29 de junho, após o terceiro dia de fustigamento incessante, o coronel José Belém de Figueiredo foi formalmente apeado do poder. Rompia-se o elo dos Pereiras no Cariri. No vácuo daquela deposição, o coronel Antônio Luiz Alves Pequeno foi grimpado ao comando municipal.
A vitória era cearense, mas o verdadeiro impacto daquele triunfo cruzou de volta a Chapada do Araripe para cobrar sua conta em Pernambuco. Longe de pacificar os ânimos, o desfecho sangrento no Crato funcionou como o estopim que faltava para fazer eclodir, com fúria renovada, o antigo ódio entre os tradicionais clãs Carvalho e Pereira no início do século passado.
O que se viu a partir dali foi uma guerra de guerrilha que se arrastou dolorosamente até o ano de 1922. Duas décadas de emboscadas, vilas sitiadas e luto, onde a linha entre a defesa da honra familiar e o famigerado banditismo acabou por se apagar de vez, alimentando o ciclo do cangaço que marcou a ferro e fogo a história do nosso Pajeú. Naquela data, ficou registrado que o destino do Crato foi decidido pela força de homens de Pernambuco — e que o preço dessa audácia seria pago com o sangue do próprio Sertão.
Valdir José Nogueira de Moura.
Lampião, Cangaço e Nordeste (Facebook)
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