AÇÚCAR COMO SENHA, SÃO LOURENÇO COMO MARCO: OS PRIMEIROS DIAS DA INSURREIÇÃO
A revolta que expulsaria os neerlandeses de Pernambuco tinha, segundo José Antônio Gonsalves de Mello, uma senha de reconhecimento entre os conjurados: a palavra “açúcar”. Mas a data planejada para sua eclosão nunca chegou a valer. Os conjurados haviam fixado a insurreição para 24 de junho de 1645, dia do santo do rei de Portugal e de João Fernandes Vieira, que o “havia tomado por padroeiro na empresa da liberdade”. A escolha também evitava o pior das chuvas de inverno na zona da mata. Um imprevisto, porém, alterou todo esse calendário.
Em 30 de maio de 1645, o médico sefardim Abraão de Mercado entregou ao conselho holandês uma denúncia anônima, assinada por dois informantes que se identificavam apenas como “A Verdade” e “Plus Ultra”. O papel revelava que já havia gente armada na capitania, na expectativa de socorro da Bahia, e apontava Vieira como cabeça da conspiração. Viria a saber-se depois, por confissão dos próprios, que os denunciantes eram Sebastião de Carvalho e Fernão do Vale, ambos conjurados da própria trama. A descoberta precipitou tudo: a insurreição teve de antecipar-se em onze dias.
Os holandeses tentaram agir antes que a revolta se organizasse por completo. Na noite chuvosa de 12 de junho, uma tropa sob o tenente Jochem Denninger cercou a casa de Vieira no Engenho São João, na Várzea, para prendê-lo, mas ele já havia fugido horas antes. A operação fracassou também contra os demais conjurados procurados naquela noite, com uma exceção: Sebastião de Carvalho deixou-se prender e depois confessaria detalhes adicionais da trama em curso.
Só em 29 de junho, no acampamento de Maciape, Vieira recebeu reforços que mudariam o equilíbrio de forças: cerca de 800 homens armados. Por volta do dia 30, vieram os primeiros frutos militares: uma patrulha holandesa de doze soldados e oito indígenas aliados, enviada a São Lourenço em busca de farinha, foi atacada e derrotada, pequena vitória que anunciava o desfecho de nove anos depois.
Fonte: MELLO, José Antônio Gonsalves de. João Fernandes Vieira: mestre-de-campo do terço de infantaria de Pernambuco. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.
Imagens: São Lourenço da Mata (Pernambuco) em imagens antigas e recentes, incluindo posição no mapa PRAEFECTURAE PARANAMBUCAE PARS BOREALIS, una cum PRAEFECTURA de ITAMARACA (Cornelis Goliath & Georg Marcgraf, 1643; publicado por Joan Blaeu em 1662) do acervo da Biblioteca Real dos Países Baixos, Haia
O Brasil Holandês 1624-1654 (Facebook)
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