O cheiro do buriti e a saudade da vó Maria Rita
Ah, que saudades da casa da vó Maria Rita! Daquela casa de taipa, coberta de palhas, com o chão de terra batida e os potes enfileirados nas laterais, guardando os frutos de buriti postos de molho, à espera do momento certo para se transformarem em massa, doces e mangustos.
De setembro a dezembro, a safra chegava trazendo muito mais que o sustento. Era tempo de trabalho, mas também de festa! Os encontros para a colheita, os grandes cestos e balaios cheios de frutos, o descascar, a raspagem para retirar a massa… Tudo acontecia entre conversas descontraídas, cantorias e muitas risadas. O trabalho era árduo, mas a alegria fazia tudo parecer mais leve.
Era assim que a vó Maria Rita ganhava o pão de cada dia, com a força de suas mãos, a sabedoria dos antigos e a dignidade de quem conhecia os segredos da terra. Depois, vinham as caminhadas até as casas das freguesias, levando as porções cuidadosamente enroladas em folhas de bananeira. E aquele cheiro sui generis do buriti, tão peculiar, tão nosso, anunciava a chegada de uma iguaria feita de trabalho, tradição e afeto.
Naquela época, talvez eu não compreendesse toda a importância daqueles dias. Hoje, porém, percebo que ali havia muito mais do que uma atividade de subsistência: havia cultura, solidariedade, saberes passados de geração em geração e uma economia simples, sustentada pelas mãos calejadas de mulheres como minha avó.
O tempo passou, a infância ficou para trás, mas algumas lembranças não envelhecem. Basta pensar no buriti para que eu volte àquela casa, escute as gargalhadas, sinta o cheiro das folhas de bananeira e enxergue a vó Maria Rita em meio aos potes e balaios, trabalhando com a determinação de quem fazia do pouco uma grande riqueza.
Ah, vó, que saudades daqueles dias de setembro a dezembro! Saudades da simplicidade, das cantorias, dos doces, dos mangustos e daquele mundo em que a felicidade morava nas pequenas coisas.
Hoje sei que o buriti nunca foi apenas um fruto. Era o sustento da família, a festa da comunidade e um pedaço da minha infância.
E a vó Maria Rita… Ah, essa permanece viva em cada lembrança, em cada aroma, em cada saudade que o tempo não consegue apagar.
Porque existem cheiros que ficam na memória, sabores que moram na alma e avós que se tornam eternas dentro de nós.

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