Tapuias contra Portugueses: A Guerra dos Bárbaros
A Guerra dos Bárbaros, também chamada de Levante dos Tapuias ou Confederação dos Cariris, começou em 1687 e foi a reação dos indígenas ao avanço português sobre seus territórios na Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, após a expulsão dos holandeses.
A origem remonta a uma ordem régia de 1654, pela qual Dom João IV distribuiu sesmarias aos oficiais e soldados que lutaram contra os holandeses. Entre eles estavam João Fernandes Vieira, na Paraíba, e a família Oliveira Ledo, no Rio Grande do Norte, ambos em terras janduí. Atacados pelos sesmeiros, os Janduí foram os primeiros a reagir: expulsaram os colonos, mataram pessoas e gado, e sua vitória estimulou outros grupos, como Paiacu, Kratiú, Icó, Sucuru, Pega, Panati e Corema, chamados coletivamente de "Tapuias". O pavor foi tamanho que se temeu a perda de Natal, depois do ataque a Ceará-Mirim.
Em 1688, o capitão-mor Agostinho César de Andrade prometeu perdão de crimes a quem lutasse contra o “gentio”, e a guerra foi declarada justa o que autorizava escravizar os vencidos. Atraíram-se assim Henrique Dias, Domingos Jorge Velho e os bandeirantes paulistas. Mesmo assim, a maioria dos soldados da Coroa eram indígenas potiguaras, reunidos no Terço do Camarão, movidos por antigas rivalidades com os tapuias do interior.
A força dos confederados vinha da união, das emboscadas e do uso de armas de fogo, obtidas pelo comércio com piratas, e de cavalos. Esse modo de lutar desconcertou os europeus, acostumados ao combate em campo aberto. Com a dificuldade de vencê-los, a ordem passou de capturar a exterminar: cartas a Domingos Jorge Velho pediam que os “bárbaros” ficassem “totalmente extintos”.
Uma grande seca enfraqueceu os rebeldes e levou, em 1692, a um tratado de paz. Os chefes indígenas prometiam 5 mil guerreiros ao rei e forneceriam trabalhadores às fazendas, em troca de dez léguas quadradas e da condição de livres. Os colonos, porém, continuaram invadindo as aldeias. Em 1693 chegou o Terço dos Paulistas, de Manuel Álvares de Morais Navarro, que em 1699 provocou o Massacre do Jaguaribe: durante uma festa na aldeia paiacu, um tiro disparado por Navarro desencadeou um confronto generalizado, com centenas de mortos e ao menos 300 cativos. Navarro entrou depois em conflito com jesuítas e colonos, foi preso e o terço, extinto.
Os combates prosseguiram até 1720, com novas rebeliões, bandos com promessa de escravos e a Carta Régia de 1715, que mandava extinguir ou afugentar os “bárbaros”. Na fase final, a Guerra do Açu os missionários jesuítas protestaram, denunciando abusos contra os indígenas, inclusive os já cristianizados.
A Guerra dos Bárbaros consolidou a presença da Coroa portuguesa nos sertões nordestinos. A experiência adquirida pelas autoridades coloniais na mobilização de tropas, na negociação de alianças indígenas e na administração dos territórios conquistados contribuiu para ampliar a capacidade de intervenção do Estado colonial em regiões até então pouco controladas
Fontes: Beatriz Dantas, José Augusto Sampaio e Maria Rosário de Carvalho; Leonardo Dias; Lígio Maia; Pedro Puntoni; Soaraya Geronazzo Araújo; Thyego Franklim da Silva.
Créditos ao Prof. Dr. Lenin Campos Soares

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