A permanência das coisas - Por Ana Miranda

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A permanência das coisas - Por Ana Miranda
Subi uma das serras que se  chama da Tormenta, ao sul de Minas, e foi ali que me veio uma pergunta: o que passa e o que fica? ali do alto onde tudo se avista, onde o vento mostra a sua força e as nuvens sua amplidão, ali eu me interroguei, porque a serra tem a mansidão da eternidade feita de pedra , e a aldeia a seus pés. Carmo do Rio Claro, tem a calma da infinidade. Ali as pessoas nascem devagar, andam devagar, olham longamente, se debruçam nas janelas, conversam sobre as minúcias, cruzam solenes as ruas, se amam com lentidão. Infinitamente fabricam doces eternos, observam a vida a se consumir nas achas do fogão a lenha, a escoar no soro do queijo branco e a vida parece que não passa, ou passa sem se perder, passa,passa na procissão, morrem os momentos devagar e calmamente, como se nao morressem. E as noites, completas, com a reticência das estrelas. E todas as dores cabem num coração. e tudo cabe numa pequena igreja, glória feita de mistério.
Será que uma aldeia pode perpetuar nossa vida? Será que uma geografia pode nos eternizar? Será que uma serra para sempre existirá? Até quando tudo existirá?Alguém que nasceu aos pés de uma forma perene sente tudo permanecer? Serei eu tão imóvel porque nasci diante de um oceano? tudo passa?  Tudo fica? Será que a passagem das coisas é apenas um sentimento? Perguntas ao vento, que ninguém responderá. Perguntei ao Drummond, que tem duas mãos e o sentimento do mundo, seu livro respondeu. De tudo ficou um pouco, pois de tudo fica um pouco, sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes. O terceiro amor passou, mas o coração continua.
As flores que nascem no meu jardim não  fazem referência a flores anteriores ou melhores : elas são pelo que são, existem hoje com Deus, diria um padre. São novos passarinhos que cantam nas árvores? Novas crianças que cruzam sozinhas a praça do Carmo, ou as mesmas crianças de sempre? Novas palavras que escrevemos, ou as mesmas palavras de antigamente? Quando nos esquecemos de alguém, passar é o esquecimento? Relendo tudo o que escrevi nesta revista, senti que algo ficou do que eu quis dizer , talvez pouco. Mais do que vivi, tudo ficou em mim. tudo fica em nós As palavras eternizam a impermanência, sabemos que o dia passará, mas que o sol vai ressurgir. Tudo é e tudo foi, flor de percepção, uma flor escura rara. Uma serra desenhada no horizonte  guarda a ideia da mais lenta evolução . Depois que subi essa serra, entendi alguns seres que se demoram a viver, pensam antes de responder, hesitam antes de decidir, eles tem em seu coração a permanência do instante.
Ana Miranda é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo,Anrik, Dias & Dias, entre outros livros.



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