De Virgulino a Lampião _ Samamultimidia.com Parte II

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DE VIRGULINO A LAMPIÃO - SAMA MULTIMÍDIA - PARTE II

Quando no viço de seus dezessete anos, gostara Virgulino de uma jovem, Santina Lopes da Silva, a quem ele chamaria de Flor Mimosa do Sertão em formosos versos de fina sensibilidade amorosa.

"Tive até meus amores
Cultivei a minha paixão
Amei uma flor mimosa
Filha lá do meu sertão
Sonhei de gozar a vida
Bem junto à prenda querida
A quem dei meu coração".

O porém da história foi ter aparecido um rapaz da mesma idade de Virgulino e parente de Zé Saturnino, o qual se tomou de paixão encegueirada pela mesma donzela, apesar de não correspondido e até mesmo repudiado por ela.  Num dia de sol ipiaça, arado pela roedeira do ciúme, foi o tal esperar Virgulino que ia em caminho do bebedouro da fazenda. Todo raposeiro, fez-lhe perguntas ciumentas, desafiando-o e arrepiando-se amolestado para cima de Virgulino. No entanto, não teve sorte nem sustança na empreitada: apanhou muito. Por esse motivo, ficaram os parentes do moço apanhado queixosos, ressentidos, abafados. Os recalques sertanejos se acentuam pelo isolamento em que vivem. Seu campo de imagens é reduzido ao pequeno e invariável mundo que os cerca, donde a facilidade de fixação de lembranças, principalmente dos fatos quentes. Não se esquecem de nada, seja o mal, seja o Bem. De uma faúlha tudo pode ser fatível. Mesmo de dentro da cinza podem ser gerados incêndios. Questão de oportunidade, somente.

De início estabeleceu-se a má vizinhança. De quando em vez, nas terras dos Ferreiras apareciam cabras surradas, bodes de orelhas cortadas, ovelhas com pernas quebradas ou simplesmente o sumiço de bodes e cabras. Daí sucederam-se, desavenças, insultos, provocações e brigas que a cada dia faziam aumentar ainda mais a tensão entre as partes adversas, passando as hostilidades a ter um caráter ostensivo, de atritos pessoais numa progressão perigosa e imprevisível de conseqüências.

Houve então uma causa determinante que transformaria Virgulino em Lampião. Zé Saturnino, já de caso pensado para uma invasão e tomada da fazenda Ingazeira (dos Ferreiras), construiu uma cerca para situar um roçado sobraçando bons pedaços de terra daquela fazenda. Os Ferreiras, certos de seu direito de propriedade, desmancharam a cerca. Nisso, o gado da Ingazeira, pastoreando por essa fronteira aberta, invadiu a área de Zé Saturnino. Este ordenou a um cabra seu, Olímpio Benedito:

“Quando os Ferreira vinhé, juntá o gado na broca, chame o Chico Morais Arves (outro cabra) e infinque bala neles. O rifle tá aqui no canto cum a cartucheira”.

No dia seguinte, 13 de outubro de 1917, pelas seis da manhã, os três irmãos, encourados em trajes de vaqueiro e desarmados, chegaram para rever o gado e na mesma hora Olímpio deu garra do rifle e deu três tiros com o objetivo de atingir os rapazes, só não conseguindo porque era a primeira vez que atirava com aquele tipo de arma.

Em 14 de outubro houve troca de tiros, e no dia 15 rompeu um tiroteio violento e rápido, que durou de dez a quinze minutos, ficando, de início, Antônio Ferreira, o primogênito, ferido com um balaço que lhe pegou na região do apêndice. Retiraram-se os Ferreiras sem que os inimigos tivessem coragem de lhes seguir no encalço.

Pela primeira vez na vida Lampião atirava em gente! Contava ele dezenove anos.

José Ferreira tomou um burro e foi à cidade dar parte e instaurar processo contra as sucessivas ameaças e provocações de Zé Saturnino, culminadas com o baleamento de seu filho. Ora, a “justiça”, subalterna ao mais “forte”, sempre fugira de atender a um justo reclamo de sua alçada e que poderia dar cabo de tais malquerenças e estabelecer a paz em definitivo.

Diante do fracasso, voltou José Ferreira para casa, humilhado, desfazível, sofrido, e sem tino para encontrar solução. “A besta-fera se soltou” – exclamava D. Jacosa.

Foi quando os Ferreiras compreenderam que tinham diante de si um “terrível inimigo”,  o inimigo número um: Zé Saturnino. Na estrofe, sincera e sentida, que abre este capítulo, Lampião lamentou as imposições do destino.

Tamanha era a maldade e a insistência do terrível vizinho, tão vis os ultrajes à dignidade e tão baixos os insultos que aquele lhes desferia, que era difícil suportar tudo aquilo sem uma reação violenta, e só mesmo com muito amor ao sossego e vontade grande de viver em paz! José Ferreira, homem eminentemente pacífico, ponderou seriamente a precariedade de sua situação: os adversários apatacados, muito numerosos, com todo o apoio político, cheios de império, rancorosos e vingativos. Do seu lado, conhecia de sobejo a natureza de seus filhos, puxados à mãe, do sangue quente dos Lopes, indômitos e terríveis nas reações contra quem tentasse espezinhá-los, a ponto de lhe ser difícil, a ele, pai, contê-los, apesar de serem muito respeitosos e obedientes. Achou por bem sacrificar os seus precatos e mudar-se, mesmo na aventura da incerteza, para distante, esperando assim obter, dos antagonistas, a paz e o direito de trabalhar e viver como cristão.

Por iniciativa de Cornélio Soares, um amigo, para dar compensação de garantia a José Ferreira, estabeleceu-se um acordo mútuo entre as partes litigantes – os três irmãos Ferreira e Zé Saturnino com João Nogueira e seus dois filhos, Zé e Neneco - de não irem às ribeiras uns dos outros. Nenhuma restrição aos demais membros das famílias. Um leve sereno de esperança e paz parecia cobrir de refrigério o espírito de José Ferreira e de toda a gente daqueles esquisitos.

Nos começos de janeiro de 1918, José Ferreira, com grandes prejuízos, vendia sua parte na Ingazeira, mais uns tantos terrenos e bichos. Além do sinal, nada mais o velho Zé Ferreira recebeu! Pela derradeira vez, circunvagueou o olhar marejado em volta, fazendo cera na contemplação daqueles chãos que traziam o sinal e as marcas de seu coração: sua primeira propriedade, o início de sua vida independente, o recanto de suas labutas e sonhos, o berço de seus amores representados por sua esposa e seus nove filhos...

Rumou a família para Poço do Negro, distrito de Floresta. No caminho, cada batida das apragatas era uma pancada no coração.  Ali, numa pequena casa de taipa se instalaram enquanto se faziam urgentes reparos na bastante deteriorada casa de alvenaria de tijolo da fazenda. Virgulino, com sua inteligência e habilidade para tudo, tomou parte nos consertos, improvisando-se de pedreiro.

Retomaram, José Ferreira e seus filhos, o ritmo normal de trabalho: campo e almocrevia. Contudo, cultivavam os Ferreiras a alegria de viver. Gente boa e amiga,  promoveram festas e casaram Virtuosa, todos anchos de felicidade, porque era o primeiro casamento na família.

CONTINUA...

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Fotos:

1 - Virgolino Ferreira da Silva o famoso Lampião;
2 - José Saturnino o inimigo nº 1 de Lampião;
3 - Maria Jacosa Vieira Lopes, 'Tia Jacosa' - avó de Lampião - fonte:  A foto da avó e mãe de criação de Lampião foi tirada na década de 1950 por João de Souza Ferraz filho de Manoel Flor, e publicada pela primeira vez no livro O Canto do Acauã, de Marilourdes Ferraz, em 1978. A foto pertence ao arquivo particular da mesma.

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