O natal dos candomblecistas_ Por Márcio Righetti

KÉRÉSÌMESÌ – O NATAL E OS CANDOMBLECISTAS

O Natal há muito tempo deixou de ser unicamente uma data comemorativa dos católicos. O Natal é uma data consagrada pela cultura brasileira como um dia de confraternização, de união familiar.
Desde o século XIX, no período da colonização africana pelos europeus, povos como o yorùbá já tinham contato com a Religião Cristã. Já tinham sido apresentados a Jésù (como os povos yorubanos chamam Jesus) e a Ẹ̀là (o paralelo como entendiam o Espírito Santo).
No afã de catequizar os africanos, franceses, ingleses, alemães, holandeses, italianos, belgas, entre outros, fincaram os pés em diversos territórios africanos tentando marcar espaços para garantir os benefícios do imperialismo, transformando reinos livres em colônias do ocidente.
Para facilitar a tarefa, os europeus tentavam “amansar os nativos” impondo a estes a assimilação de sua cultura e do seu credo.
Kérésìmesì é como os yorùbá chamam o Natal. A festa católica nunca foi incorporada como rito nos Cultos Tradicionais Africanos, nem no Candomblé brasileiro. E nem precisa ser, em que pese a força do sincretismo surgido em nosso país.
Basta saber a origem da Festa e o sentido religioso. Basta entender.
Mas por que rejeitar? Não podemos nos portar como os fundamentalistas que proíbem seus filhos de comer doces no dia de Cosme e Damião, ou que boicotam o acarajé. Esses também são exemplos válidos de compartilhamento cultural. Não de unificação ritual.
Aqui no Brasil, foi graças ao Natal que surgiu a feijoada. Pois as tripas, miúdos e as chamadas fissuras do leitão que seria assado e enfeitaria o ceia dos patrões na casa grande, eram dados nesta data aos escravos na senzala. Então, os “pretos”, com seu talento sem igual e sua criatividade ímpar, juntavam tudo ao feijão e aos temperos da hora, criando o prato mais importante e identitário da culinária brasileira: a feijoada.
Candomblecistas, judeus, muçulmanos, budistas e tantos outros religiosos que vivem aqui, entendem a força e a vastidão da nossa cultura. Quem não deseja “Um Feliz Natal”? E por que não desejar, já que o Natal também possui um significado de paz, harmonia, esperança?
Afinal, paz (àlàáfíà), harmonia (ìrẹ́pọ), esperança (ìrètí), não são desejos apenas dos cristãos. São também dos candomblecistas e de todos aqueles cuja religiosidade deve valer a pena.
O Natal é uma época de congraçamento, de união, de consolidação das famílias. Isso não deve ser rejeitado sob nenhum pretexto. Muito menos sob a justificativa religiosa. Não seria cabível criar um conflito no seio da família, por uma dissidência de fé.
Natal é uma época de lembranças boas, nas quais rememoramos momentos felizes que passamos com nossos parentes, amigos e entes queridos. Isso só pode agradar aos nossos ancestrais (ésà).
Se os parentes têm credos diferentes, que o Natal sirva como exercício de tolerância, como exemplo de boa convivência. Que então, se for necessário, nem se fale de religião. Mas se pratique a solidariedade, a superação e a união das famílias.
Basta sabermos o que é nossa religião. Basta entendermos o que faz e o que não faz parte da nossa liturgia. Basta sermos irmãos.
Ẹ kú Kérésìmesì ! Bom Natal ! Que seja um momento de paz aos brasileiros de qualquer credo!
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Márcio de Jagun ( texto Marcio Righetti ).

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