O Verão e as mulheres - Crônica de Rubem Braga


Eu (Giovani Costa em Bertioga, verão de 1998)

O verão e as mulheres
Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. talvez tenha acabado o verão.
Estamos tranquilos. Fizemos este verão com paciência e firmeza, como os veteranos fazem a guerra. Estivemos atentos a lua e ao mar: suamos nosso corpo; contemplamos as evoluções de nossas mulheres, pois sabemos o quanto é perigoso para elas o verão.
Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas  das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho.
Seus cabelos tornam-se mais claros e as vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro.
Estremecem quando de súbito defrontam um gato, são assaltadas por uma remota vontade de miar, e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.
Entregam-se a redes; é sabido, ao longo de toda faixa tropical do globo, que mulheres não habituadas a rede e que nelas se deitam ao crepúsculo, no estio, são perseguidas por fantasias e algumas imaginam que podem voar de uma nuvem a outra nuvem com facilidade. Sendo embaladas, elas se comprazem nesse jogo passivo  e as vezes tendem a se deixar raptar, por deleite ou preguiça.
Obeservei uma dessas pessoas na véspera do solstício, em 20 de dezembro, quando o sol ia atingindo o primeiro ponto do capricórnio, e a acompanhei até as imediações do Carnaval. Sentia-se que ia acontecer algo, no segundo dia de lua cheia de fevereiro; sua boca estava entreaberta: fiz um sinal aos interessados e ela pode ser salva.
Se realmente já chegou o outono, embora não o dia 22, me avisem. Sucederam muitas coisas; é tempo de buscar um pouco de recolhimento e fazer um poema.
Vamos atenuar os acontecimentos, e encarar com mais doçura e confiança as nossas mulheres. As que sobreviveram a este verão.
                                                                                                          Março de 1953
Rubem Braga
200 Crônicas Escolhidas 
Ed Record

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