A OUTRA FACE ( AUTOR DESCONHECIDO)

*A OUTRA FACE 🌝*


A biblioteca do mosteiro é encantadora. Uma enorme variedade de títulos em um ambiente de silêncio e conforto, além da vista espetacular das montanhas permitida por suas enormes janelas, em estimulante convite à reflexão. Ali era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, nos finais de tarde, sentado em uma das poltronas, com os olhos perdidos entre letras e paisagem. Lembro de certa vez, ainda nos meus dias de iniciação, que me aproximei e, ávido por conhecimento, pedi a ele uma relação de livros para aprofundar os meus estudos. Ele me observou com bondade e disse: “Comece por ler qualquer dos livros, o importante é iniciar. Aos poucos o seu próprio interesse vai direcionar a leitura na medida da sua necessidade”. Argumentei que a explicação era falha, pois não poderia deixar ao acaso o direcionamento dos meus estudos. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e falou: “O acaso não existe. O importante é que você esteja por inteiro em cada página lida e que o seu gosto lhe sustente para que não haja abandono. De alguma estranha maneira, todos os caminhos levam ao destino”. Recusei a resposta. Então, perguntei a ele se, hipoteticamente, apenas fosse permitido ler um único livro em toda a sua a vida, qual escolheria. A nova resposta veio rápida e objetiva: “O Sermão da Montanha”.

Repliquei que não é exatamente um livro, mas um pequeno texto de não mais de cinco páginas, podendo ser lido em poucos minutos. O Velho tentou explicar: “Toda a sabedoria da vida consiste em ‘tratar o outro da maneira em como quero ser tratado’, como resumiu o professor. No entanto, poucos conseguem viver de acordo com esta simples frase”. Eu quis saber o que mais havia no Sermão da Montanha que tanto o encantava. Ele disse: “Ali você encontrará a estrada para a plenitude e construirá a casa da paz dentro de si, caso consiga entender toda a amplitude e viver de acordo com aquelas palavras. Todos os bons livros são apenas releituras de parte dessa pequena grande obra. Nada do que precisa ler está fora desse texto, nada do que precisa ser está fora você”.

Deu uma pequena pausa e comentou: “Eu o leio todos os dias há anos. As descobertas ainda não cessaram”. Confessei que já tinha lido o referido texto e, embora tivesse achado interessante, o encantamento não foi além disto. O monge deu de ombros e voltou à leitura. Claro que no mesmo instante me acomodei em um canto da biblioteca para ler as linhas tão incensadas pelo monge. Em menos de uma hora eu já tinha lido o texto várias vezes. Tornei a interromper o Velho para falar sobre uma parte que dizia que ‘quando atingindo em uma das faces, deveríamos oferecer a outra’. Argumentei que aquela situação era tão irreal que se tornava uma enorme bobagem. E mais, que ninguém era saco de pancada e aquilo era um hino à covardia. O Velho fechou o livro que o entretinha e se virou para mim. Seus olhos transbordavam compaixão: “Não é isso que o texto aconselha”, falou. “É necessário aprofundar em suas filigranas para entender as entrelinhas, único jeito para decodificar todo o seu belo conteúdo”.

Contestei. Sustentei que se aquela sabedoria era para o bem da humanidade, por qual motivo não se expunha, desde sempre, toda a sua verdade de forma clara e objetiva. O monge respondeu com a sua enorme paciência: “O texto é simples, mas profundo ao mesmo tempo. Lembre que são palavras proferidas para atravessar o tempo e operar transformações em infinitas almas em diferentes estágios evolutivos. Assim, as interpretações são pessoais, na exata medida da expansão de consciência de cada um. Por isto a necessidade de sempre retornar ao texto, pois são palavras vivas que se alteram na medida da transformação do leitor”. Deu uma pequena pausa e prosseguiu: “Acho que eu conseguiria escrever um livro apenas na divagação e reflexão dessa minúscula frase que você destacou do precioso texto. Aliás, posso afirmar que muitos romances e filmes maravilhosos já foram realizados com histórias sobre o tema específico da ‘outra face’ e suas muitas variações e inúmeros comentários. No entanto, talvez pouco tenham se dado conta da fonte original”.

A irritação com toda a divagação começou a tomar conta de mim, então, eu quis saber todo o entendimento contido no simples verso daquele texto que o monge enxergava e me era negado. Havia sarcasmo no meu pedido. O Velho percebeu e sorriu. Seus olhos, emoldurados pela pele vincada, já tinham visto muitas coisas e não se permitiam mais perder a luz da vida. Ele disse com enorme paciência: “Dos muitos aspectos, vou abordar apenas alguns que me parecem mais relevantes no momento”.

Deu uma pequena pausa e iniciou: “O primeiro deles é não usar o mal para combater o mal. Isto apenas alimenta as forças da escuridão que habitam em ambos os lados, fortalecendo as sombras e justificando os malfeitores. Todas as vezes que você fala, pensa ou age movido pelas suas paixões densas e pesadas, estará fomentando as sombras que existem dentro e fora de você”.

“Como pode alguém reclamar do mal se também o pratica? Temos que modificar essa experiência se desejamos resultados diferentes do que temos alcançado até agora. Não que você deva ser conivente com o mal e o malfeitor, eles devem ser estancados. Mas a maneira pela qual fará isto traz toda a diferença. Uma sombra não tem poder para iluminar outra. Lembre-se do que diz o mestre em outra passagem do Sermão da Montanha: ´Você é a luz do mundo’. Portanto, deixe-a brilhar para iluminar os passos de toda a gente. Ofereça a sua outra face, a face de luz ”.

“Outra interpretação, igualmente valiosa, que podemos extrair dessa parte do texto é que ‘oferecer a outra face’ também significa se colocar no lugar do outro, ver a situação e o mundo com as dores, olhares e, principalmente, limitações dessa pessoa. Um sujeito feliz não pratica deliberadamente o mal. A agressividade é fruto de todo aquele que ainda não encontrou a paz. Toda violência é fruto do descontrole que tem raiz na agonia, no desequilíbrio e no sofrimento. Não que isto justifique qualquer loucura ou crime. Claro que não. Todavia, na verdade, inconscientemente, aquele que praticou o mal está desesperado consigo mesmo, ele está pedindo ajuda. Assim, ao oferecer a outra face, permitimos que a compaixão ocupe o lugar do ódio em nossos corações, modificando o entendimento, a reação e a solução que daremos ao caso. Teremos sempre a escolha entre a justiça e a vingança. A diferença entre elas está no amor contido em cada decisão. A vingança tem por objetivo o castigo; a verdadeira justiça está preocupada com a evolução”. Mirou fundo em meus olhos e disse com bondade: “Em outra passagem no Sermão que Ele ensina: ‘Quando seu olho é bom, todo o seu universo é luz’. Indispensável é encontrar a beleza em todas as coisas e pessoas. Seja pelas lições ocultas nos conflitos, seja como régua para entender até aonde já somos capazes de andar”.

“Não podemos esquecer de mais um grande ensinamento contido na pequenina frase que aconselha a ‘oferecer a outra face’: a não-violência. Abraçar este comportamento como estilo de vida é permitido apenas aos corajosos. Toda agressão é uma reação típica daqueles que têm medo, são inseguros e atacam como mecanismo de defesa. A violência em qualquer das suas possibilidades (física, verbal ou em pensamento), faz o jogo das trevas, onde as suas sombras ganham força para apagar o brilho da sua própria luz. Ao reagirmos com o que temos de pior apenas alimentamos as sombras. Como reclamar da violência se a praticamos de alguma maneira, mesmo em retribuição ou menor intensidade? Não sejamos hipócritas. É indispensável entender que a paz, como todas as demais conquistas, nasce de uma escolha. É uma decisão individual que tem o poder de contaminar e transformar, aos poucos, toda a humanidade. Ser um sujeito pacífico é elegante, útil e necessário”. Piscou o olho de jeito maroto e brincou: “Ser da paz nunca sai de moda”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “Você lembra de um trecho no Sermão da Montanha que o mestre diz que mais importante do que ir à missa e rezar é procurar as pessoas com quem temos problemas para tentar resolvê-los? Esta é uma bela oração. Amor e sabedoria não podem ser inerciais, temos que movimentá-los para que cumpram as suas finalidades. Percebe que ao invés de lamentar os desencontros e exigir a perfeição dos outros devemos buscá-los para oferecer o nosso melhor? Como conseguir isto sem oferecer a outra face”? Se calou por segundos e concluiu: “A face da Luz”.

Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Os olhos do monge pareciam perdidos por além das montanhas. Quebrei o silêncio para dizer que não era fácil seguir aqueles conselhos. O Velho voltou o seu rosto para mim e disse: “Ninguém disse que era fácil. Apenas que é necessário. Entender onde se quer chegar motiva o andarilho, direciona as suas escolhas e revela o Caminho. Esta é a parte que ninguém pode realizar pelo outro, é a que antecede as asas, é a transmutação do ser. Depois é compartilhar semeando flores para quem vem atrás e conquistar a permissão !

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