Cristo Hipercubo


Cristo Hipercubo

Estou muito longe de ser fã de Salvador Dalí. No entanto, pelo menos um de seus quadros pode ser considerado incontestavelmente uma obra genial: “Christus Hypercubus”.

A história toda começa com um imaginoso matemático inglês chamado Charles Howard Hinton que ficou famoso como “o homem que viu a quarta dimensão do espaço”. Hinton era um sujeito obcecado por objetos quadrimensionais e passou toda sua vida tentando criar diferentes métodos para visualizá-los.
Um dia Hinton teve uma idéia bastante original: se existissem seres inteligentes que habitassem um mundo bidimensional, como nós (seres tridimensionais) poderíamos comunicar a idéia de tridimensionalidade a estes seres? Hinton imaginou uma folha de papel (onde habitariam os bidimensionais) e um cubo sobre esta folha. Os bidimensionais apenas veriam um quadrado sobre a folha (o que seria a projeção do cubo sobre ela). Mas, se desmembrássemos o cubo sobre o papel, os bidimensionais veriam seis quadrados formando uma cruz (um quadrado no centro, um quadrado acima, outro a direita, outro a esquerda, e dois abaixo). E assim poderíamos informar aos bidimensionais que os seis quadrados formando uma cruz eram o desmembramento de um cubo em duas dimensões, e lhe pediríamos que fizessem um esforço para reconstruí-lo mentalmente em três dimensões. Obviamente os bidimensionais não conseguiriam visualizar o cubo, mas seu desmembramento sobre o papel seria a única forma de comunicar a trimensionalidade de nosso mundo aos bidimensionais.


Da mesma maneira, Hinton imaginou seres quadrimensionais tentando se comunicar com o nosso mundo tridimensional, e chegou à conclusão de que o desdobramento de um “cubo quadrimensional” (um hipercubo) no nosso mundo seria uma cruz formada de oito cubos (como pode ser visto no quadro de Dalí). Obviamente este hipercubo não pode ser visualizado: é impossível visualizar como estes oito cubos poderiam ser dobrados para formar um hipercubo, da mesma forma como os bidimensionais não conseguiriam visualizar como os seis quadrados poderiam ser dobrados para formar um cubo. No entanto, uma pessoa de um mundo quadrimensional poderia “erguer” os cubos de nosso mundo tridimensional e “dobrá-los” para formar um hipercubo. Nossos olhos testemunhariam um evento espetacular: veríamos os cubos desaparecerem, deixando apenas um único cubo no nosso mundo (a projeção do hipercubo em nosso mundo tridimensional). A mesma coisa aconteceria para os bidimensionais: quando erguêssemos cada ponta do cubo para montá-lo em três dimensões, os bidimensionais veriam os quadrados desaparecerem de seu mundo, deixando apenas um quadrado (que seria a projeção de nosso cubo no papel).


Este conjunto de oito cubos que Hinton concebeu foi amplamente anunciado em todo tipo de revista e até mesmo “utilizado” em sessões espíritas. Muitos afirmavam que, meditando sobre os oito cubos, era possível ter vislumbres da quarta dimensão e portanto do mundo dos espíritos. Alguns até mesmo afirmaram ter conseguido a incrível façanha de visualizar a montagem do hipercubo e assim se comunicar com o mundo dos mortos. Infelizmente, estas pessoas de inigualável poder mental nunca deixaram sequer uma linha descrevendo como esta montagem seria possível.


Mas, o que importa em tudo isso são as fascinantes sugestões simbólicas do quadro de Dalí. Gala (a esposa de Dalí) pode ser vista ao pé da cruz hipercúbica (tomando o lugar da mãe de Cristo nos quadros tradicionais da crucificação, ou talvez de Maria Madalena), e o próprio Cristo é representado através do corpo imaculado (sem chagas) de um homem. O corpo rijo e tenso do Cristo se contorce de dor, mas não esta preso por cravos à cruz hipercúbica (seu corpo flutua dentro dela).


O quadro de Dalí é carregado de significados. Principalmente os possíveis significados das intrigantes sugestões de um extenso jogo de DUALIDADES: o muito claro do primeiro plano (aquilo que se oferece de perto à visão) e o muito escuro do fundo (o mistério que está além da visão); a nudez do Cristo (o mundo da espiritualidade e da inocência) e as vestes excessivas de sua mãe (o mundo do pecado e da vergonha); sua mãe pesadamente plantada no chão (a materialidade) e o Cristo flutuando no espaço (a espiritualidade); a mãe que olha para o Cristo (para o que está perto e claro) e o Cristo que olha para o escuro vazio (para o mistério que está além de nossa visão); a área do céu (onde se encontra o Cristo) bem maior do que a área do chão (onde se encontra sua mãe); a mão flácida de sua mãe (sem expressar sofrimento) e as mãos contorcidas do Cristo (expressando sofrimento); a posição calma e amena de sua mãe e a posição rija do Cristo; o elemento religioso (o Cristo) e o elemento científico (o hipercubo); a cruz plana (um elemento bidimensional) onde Cristo foi crucificado e a cruz de cubos (um elemento tridimensional) onde Cristo se “dobrará” em espírito; o grande (o espiritual) e o pequeno (o mundano), pois o tamanho do corpo do Cristo é duas vezes maior do que o de sua mãe.


Tudo isso sugere claramente a existência de DOIS MUNDOS bastante distintos. E esta existência de dois mundos, de duas dimensões distintas (da quarta e da terceira dimensão, do mundo espiritual e do mundo físico), é fortemente argumentada pela presença do hipercubo como a cruz de Cristo. O hipercubo sugere os “desdobramentos” (as revelações) do mundo espiritual (da quarta dimensão) em nosso mundo físico (da terceira dimensão). O desdobramento da dor espiritual em dor física (a dor física como projeção da dor espiritual em nosso mundo); o Deus, ente do mundo espiritual, da quarta dimensão, que se desdobrou em carne e se fez homem (o Cristo como a projeção de Deus em nosso mundo, como revelação do mundo espiritual em nosso mundo, como tentativa de comunicação entre duas dimensões quase incomunicáveis).
A nossa impossibilidade de visualizar um hipercubo montado na quarta dimensão se apresenta no quadro como a nossa impossibilidade de visualizar o mundo espiritual. O desdobramento do hipercubo em nosso mundo (como oito cubos em forma de cruz) apenas nos enche de perplexidade e nem sequer conseguimos esboçar a menor idéia de como ele seria montado. Da mesma forma, a presença de Cristo em nosso mundo nos enche de perplexidade e nem sequer conseguimos compreender como seria o mundo espiritual do qual ele seria a projeção.


Sem dúvida alguma, este quadro de Dalí é uma das mais belas expressões do mistério que envolve a impossibilidade de comunicação entre dois mundos incompatíveis.
Mas, quem conhece um pouco de Dalí sabe muito bem que por trás daquele bigodinho infame existia um macromaníaco, e não seria de se espantar que ele tivesse o topete de se retratar como “O Próprio”. E aí teríamos mais uma dualidade: a Paixão de Cristo pela humanidade (um relacionamento espiritual) e a paixão entre Dalí e Gala (um relacionamento mundano, sendo Maria Madalena representada por Gala e Cristo por Dalí). Uma pessoa provocadora e sedenta por manchetes estardalhantes, como era Dalí, provavelmente teria pensando nesta última possibilidade.
fonte:http://filosofilo.blogspot.com/2005/10/cristo-hipercubo.html

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