Invasão e resistência- Os 90 anos da derrota de Lampião no confronto com o povo de Mossoró - Massilon Leite e a tomada de Apodi -Parte II

INVASÃO E RESISTÊNCIA - OS 90 ANOS DA DERROTA DE LAMPIÃO NO CONFRONTO COM O POVO DE MOSSORÓ – MASSILON LEITE E A TOMADA DE APODI - PARTE II
Por José de Paiva Rebouças

Massilon e seu bando entraram em Apodi por volta das quatro horas da manhã do dia 10 de junho de 1927. Com tiros e algazarras espalharam o terror. Atacaram prédios importantes e estratégicos como o telégrafo e a cadeia pública, onde prenderam os praças e roubaram as armas.

Segundo o pesquisador Geraldo Maia os cangaceiros levaram uma lista de tarefas indicando o castigo de cada uma das futuras vítimas executar o presidente da Intendência Municipal, Francisco Ferreira Pinto (Chico Pinto) e o capitão Jacinto Tavares, espancar e cortar a orelha do comerciante Luiz Leite e saquear as fazendas de Luiz Sulpino e Benvenuto Laurindo.

Sérgio Dantas explica que os cangaceiros tinham à mão uma lista, escrita a lápis, com nomes dos alvos. O mais importante era o intendente Chico Pinto, seguido pelo capitão Jacinto Tavares e os comerciantes Luiz Leite, Luiz Sulpino e Bevenuto Laurindo.

Ao lado de cada um dos nomes, a pena respectiva ia desde o espancamento até a execução. Na casa de Chico Pinto, Massilon anunciou sua morte, mas, não se sabe porque acabou desistindo depois de conversar com o intendente. Levaram do homem cinco contos de réis entre dinheiro e joias da família.

O segundo ataque foi na casa de Luiz Leite. Arrombaram a porta e pediram resgate. O homem implorou pela vida. Depois disse que não tinha em caixa o dinheiro pedido por seu resgate, e então pediu permissão para tomar emprestado nas redondezas. Massilon vacilou, mas acabou cedendo. O homem saiu e não voltou mais.

Quase 10 horas da manhã, os cangaceiros ainda dominavam a cidade. O chefe do bando, enfurecido, com a enganação do refém, mandou saquear seu comércio. Acabaram entrando na firma Jázimo & Pinto, pertencente a outro comerciante.

Apossaram-se dos bens mais valiosos e, em seguida, incendiaram o lugar. O fogo se espalhou por outros prédios. Os cangaceiros ainda roubaram os comércios de Elpídio Câmara, João de Deus Ferreira Pinto e a agência da Mesa de Renda Estaduais.

Ali perto, o quadrilheiro José Pequeno, O Cajazeiras encontrou, por acaso, com o bodegueiro Manoel Rodrigues de França, conhecido como Manoel Velho, antigo desafeto. Depois de humilhá-lo, atirou nele a queima roupa. Agonizou até a morte.

Segundo Sérgio Dantas não aconteceram outras mortes na cidade graça à intervenção do padre Benedito Basílio Alves. De crucifico na mão, rogou por misericórdia. Devotos, os cangaceiros atenderam.

Sem o retorno de Luiz Leite, o bando foi embora por volta do meio dia, deixando a cidade arrasada. No caminho, invadiram e saquearam as propriedades de Antônio Manoel de Sousa, Joaquim Pereira e João Francisco de Oliveira.

De acordo com a edição de 15 de maio de 1927, além dos 5 contos levados de Chico Pinto, os bandidos levaram ainda 1 conto de Luiz Sulpino e 20 contos de Bevenuto Hollanda. João Pinto, Elpídio Câmara e João de Deus também foram assaltados em quantias inferiores a 1 conto de réis.

Um fato interessante, segundo Geraldo Maia, é que, embora não fosse comum aos cangaceiros, parte dos bandidos que atacaram Apodi estavam mascarados. Mas isso não impediu  que alguns fossem identificados como antigos residentes do lugar.

Assalto a Umarizal e a Itaú

Horas depois, Massilon chegou ao povoado Gavião, atual município de Umarizal, se passando por Lampião. O bando logo rendeu os comunitários. Na casa do chefe político do lugar, comerciante José Abílio de Souza Martins, o bandido já se apresentou como sendo o cangaceiro Sabino Gomes.

Findo o saque, dessa vez com menos violência, seguiram para o distrito de Itaú, zona rural de Apodi, hoje município emancipado. Pelo caminho, saquearam a fazenda Cajuais, de José de Alencar, em terras onde hoje fica o município de Riacho da Cruz.

Chegaram em Itaú no finalzinho da tarde. Tomaram dinheiro dos comerciantes Manoel Moreira Maia, Pedro Maia Pinheiro, João Alves Maia e dos cidadãos João Batista Maia e Paulinho Pereira do Carmo. Depois, seguiram rumo ao Ceará. Na fronteira, os valores dos saques foram repartidos e o grupo se desfez.

Com o sucesso da empreitada criminosa, Massilon Leite foi se encontrar com o então coronel Isaías Arruda em Aurora/CE, a 240km de Apodi. Lá, dividiram o saque. O bandido estava eufórico e fazia grandes planos, um deles era entrar para o cangaço.

Na penúltima semana de maio Virgolino armou acampamento na Serra do Coxá-Diamante, em Aurora/CE. Tinha fracassado na missão de saquear a Paraíba.

Coube a José Cardoso, primo de Isaías, a tarefa de levar e apresentar Massilon a Lampião. Contou sobre seu assalto e pediu que fosse incorporado ao bando. O cangaceiro desconfiou, mas, como tinha perdido alguns homens nos confrontos recentes, aceitou a parceria.

A insistência para atacar Mossoró

O coronel Isaías Arruda usou o assalto de Massilon a Apodi para convencer Lampião a invadir Mossoró, embora, desde o começo, o cangaceiro desconfiasse que a ideia não era vantajosa.

Gozando de bastante prestígio, o chefe político de Missão Velha a 50km de Aurora - tinha ganho o apoio do próprio governo cearense para derrotar, como quisesse, seus adversários. A sua fama de valente era reforçada pelo envolvimento com o cangaço. Atraía para suas fazendas tanto bandidos como homens da lei.

Lampião recuava dizendo não conhecer o Rio Grande do Norte, onde não tinha nem coiteiros, nem inimigos. Mas a pressão de Arruda e a promessa de riqueza em Mossoró encheu os olhos do cangaceiro. Finalmente se decidiu. "Vou na primeira oportunidade, mas coronel, tem que arranjar bastante munição". Narra Sérgio Dantas.

Arruda organizou a empreitada. Discutiu com Lampião o itinerário e apoio logístico para o retorno ao Ceará e arregimentou a munição prometida. Virgolino, por sua vez, conseguiu mais homens, agregando ao seu e aos grupos de Sabino, Jararaca e João Vinte e Dois, somando cerca de 70 capangas. Massilon daria a direção dos trechos principais.

Lampião entra no Rio Grande do Norte

No dia 10 de maio de 1927, Lampião passava em terras do município de Luís Gomes, no Alto Oeste Potiguar, sem nenhuma dificuldade. Não tinha rastros de volantes, mesmo na Paraíba, onde havia saqueado o povoado Canto do Feijão, hoje município de Santa Helena, fazenda grande estardalhaço e provocando mortes.

O agricultor José Leite cuidava dos afazeres da fazenda Baixio, quando foi surpreendido pelo tropel dos cavalos. Sequer reconheceu os filhos no meio do bando. Massilon e Manoel Leite, o Pinga Fogo, tomaram a Bênção.

Surpreso ao ver Manoel na tropa, o velho reclamou, mas depois lavou as mãos. Só pediu para não invadirem a fazenda do coronel Joaquim Moreira que era seu patrão e padrinho de Massilon, mas ficou sem resposta.

Um pouco afastado, Lampião avistava a região serrana do Rio Grande do Norte. Decidiu com Massilon seguir para Mossoró margeando a serra de Martins, mesmo sendo mais longe. Para guiá-los, prenderam o vaqueiro Francisco Galdino.

Continuaremos amanhã com o título:
"Terror em terras potiguares"

Fonte: Jornal De Fato
Revista: Contexto Especial
Nº: 8
Página: 11 e 12
Ano: 6
Cidade: Mossoró-RN
Editor: José de Paiva Rebouças
E-mail: josedepaivareboucas@gmail.com

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http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2017/06/invasao-e-resistencia-os-90-anos-da.html

Fotos:

1 - Jornalista José de Paiva Rebouças - Fonte: Blog do Josenias Freitas
2 - Geraldo Maia do Nascimento - Fonte da imagem: http://cariricangaco.blogspot.com
3 - Sérgio Augusto de Souza Dantas – Fonte da imagem: http://confrariamalunga.blogspot.com.br


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