LADRÃO DE MOÇA DONZELA – VICENTE DA CAMINHADEIRA NOS SERTÕES DO PIAUHY - NERTAN MACEDO

 




LADRÃO DE MOÇA DONZELA – VICENTE DA CAMINHADEIRA NOS SERTÕES DO PIAUHY.

“No abundante ano de 1805, nasceu, na Fazenda Cachorros, do termo de Tamboril [Ceará], Vicente Lopes Vidal de Negreiros, filho legítimo do abastado fazendeiro João Lopes Vidal de Negreiros e Dona Rosa Maria da Conceição. Dotado de grande coragem a par de muita agilidade, de uma vigorosa inteligência, de memória prodigiosa e de grande força de vontade, aprendeu a ler ainda que mal e escrever com boa e inteligível caligrafia, e tocar viola bem ponteada, cantar bem e dançar com graça tanto o baião de galho e bem sapateado, dando estridentes castanholas com os dedos, como o miudinho, o lundu, o coco, o bagaço, o caranguejo, não-me-deixes e outras danças que nos foram transmitidas de Portugal e da Costa d’Africa, aliás, bem mais inocentes das que atualmente se usam. Homem branco, cheio de simpatia, a abnegação de Vicente pelos amigos era sem limites. Tinha maneiras de gentil-homem e dotes outros naturais, cantando, dançando e tocando viola como ninguém, o que aprendeu desde a infância e lhe valia o respeito e a amizade dos seus amigos e conterrâneos, que o queriam também pela sua capacidade de trabalho e dignidade na conduta. Com os animais de carga e escravos do pai, que se chamava João Lopes, Vicente ganhou a vida duramente, acumulando cabedais, enfrentando caminhadas longas e penosas, a comprar sal na barra do Acaraú a 40 réis o alqueire, para revendê-lo, no Piauí, a troco de couro de gado, dando cada terça (5 litros) de sal por dois couros, couros que eram depois curtidos e vendidos em Granja, exportando-se a sola para o Maranhão. Numa dessas viagens ao Piauí, quando de uma festa de casamento, Vicente conheceu a sua futura esposa, Dona Antônia Leonor Peres, moça dotada de uma beleza deslumbrante, segundo o Coronel Catunda, filha de um Caetano Peres de Oliveira. Vicente, toda vez que se levantava para dançar nessa festa, sacudia o lenço para Dona Antônia, o que obrigou o pai, Caetano, desconfiado de tantas mesuras e gentilezas, a abandonar a sala, retirando-se com a filha. Achou o velho que aquele cabeça-chata, negociante de sal e couro, estava em grande atrevimento com Antônia e “com suas cantarolas andava seduzindo as filhas alheias”. Queixou-se, por isso mesmo, ao poderoso do lugar, o Capitão-mor F. Leitão, que convocou Vicente à sua presença, ordenando que ele se retirasse da terra dentro de 24 horas “sob pena de ser recrutado, senão lhe acontecesse coisa pior”. Mas, qual! O galante respondeu que só saia depois de ultimar os seus negócios. E, chegando ao seu rancho de comboieiro, apanhou o “Canário” e a “Negra Velha” e foi buscar Dona Antônia em casa, que se achava no copiá a fazer renda, acompanhada de uma bela criada moça. Dona Antônia, que estava apaixonada pelo “cometa” do Ceará, montou na garupa do cavalo de Vicente e foi embora com ele. Um dos ajudantes de Vicente também apaixonou-se, casando então com a criada de Dona Antônia. Já casado, Vicente foi morar em Ferreiros, no Tamboril, reconciliando-se, mais tarde, com o sogro, que muito o admirava e passou a querê-lo”. Trecho do livro “O Bacamarte dos Mourões”, de Nertan Macêdo, p. 82/84.

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