OS CAMINHOS DE PEABIRU - POR MARCIA OLIVEIRA



OS CAMINHOS DE PEABIRU FORMAM UMA ANTIGA E FASCINANTE REDE DE TRILHAS QUE SE ENTENDIAM POR MILHARES DE QUILÔMETROS, CONECTANDO O LITORAL ATLÂNTICO DA AMÉRICA DO SUL ATÉ AS REGIÕES ANDINAS, INCLUINDO O IMPÉRIO INCA. 

-Esses caminhos eram usados por diferentes povos indígenas e, mais tarde, também pelos incas, estabelecendo um elo de comércio, comunicação e intercâmbio cultural entre essas sociedades.

O termo “Peabiru” vem do tupi-guarani e significa “caminho gramado” ou “caminho amassado”, o que reflete a natureza dessas trilhas, que eram frequentemente cobertas por grama batida e compactadas pelo constante trânsito de pessoas. O nome foi dado porque esses caminhos eram claramente distintos das trilhas comuns na floresta, sendo mais largos, permanentes e destinados a viagens de longa distância.

Os caminhos de Peabiru são mencionados em várias crônicas históricas, e há evidências arqueológicas que corroboram o uso dessas rotas tanto pelos indígenas locais quanto pelos incas. Essas rotas eram utilizadas para o comércio de produtos como cerâmica, metais, tecidos, e alimentos, além de serem vias para a troca de ideias e práticas culturais.

Entre os principais achados arqueológicos que sustentam a existência e o uso dos Caminhos de Peabiru, podemos citar fragmentos de cerâmica e ferramentas de origem andina encontrados em sítios arqueológicos no sul do Brasil, bem como vestígios de construções que indicam a presença de povoações ao longo dessas trilhas. Um exemplo significativo é o sítio arqueológico de Cerro Largo, no Paraná, onde foram encontrados artefatos que sugerem intercâmbio com culturas distantes.

Essas trilhas começavam em várias partes do litoral brasileiro, com pontos principais nos atuais estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A partir daí, seguiam rumo ao interior, cruzando o Paraguai e a Bolívia, até alcançarem o Altiplano Andino, chegando a cidades importantes do Império Inca, como Cusco. No Brasil, esses caminhos passavam por regiões que hoje fazem parte dos estados do Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, e Santa Catarina, entre outros. A partir de São Vicente, em São Paulo, um dos ramais mais conhecidos seguia para o oeste, atravessando o Paraná até alcançar o Paraguai e, daí, rumo aos Andes.

Em relação à preservação física desses caminhos, em alguns locais, como em Ponta Grossa (PR) e São Miguel das Missões (RS), os caminhos ainda são visíveis como trilhas largas e compactadas, feitas de terra batida e cobertas por vegetação rasteira. Há também partes dessas trilhas que seguem cursos d’água, como o rio Iguaçu, utilizando-se da geografia natural para facilitar o deslocamento.

O historiador brasileiro Paulo Zanettini destaca a importância dos Caminhos de Peabiru como uma evidência clara de que as sociedades indígenas do Brasil e os incas mantinham relações muito mais complexas do que se imaginava. Ele comenta que “esses caminhos eram, na verdade, artérias que pulsavam vida e conectavam diversos povos, muito antes da chegada dos europeus”. Para Zanettini, o Peabiru é uma prova de que a Amazônia e o Brasil meridional estavam integrados a uma vasta rede de troca e interação.

Arqueólogos e especialistas concordam sobre a relevância dessas rotas. Rosendo Eller, por exemplo, comenta que “os Caminhos de Peabiru são uma das mais fascinantes descobertas arqueológicas da América do Sul, pois revelam uma dimensão de integração continental que até então não era reconhecida”. Além disso, o arqueólogo Edison Carlos Fernandes destaca que “os achados ao longo dessas trilhas indicam que havia um fluxo constante de pessoas e mercadorias, o que sugere um nível elevado de organização social e política entre as culturas que utilizavam essas rotas”.

Os exploradores europeus do século XVI, ao tomarem conhecimento dessas rotas e de sua conexão com o rico Império Inca, ficaram imediatamente fascinados. A ambição de encontrar riquezas e territórios, combinada com relatos exagerados sobre as maravilhas do mundo andino, levou muitos a tentar utilizar essas rotas para alcançar o coração do Império Inca e, assim, tomar parte das suas riquezas. O próprio Cabeza de Vaca, um dos primeiros exploradores a documentar o Peabiru, relatou as grandes possibilidades que essas trilhas ofereciam para alcançar e explorar territórios repletos de ouro e prata.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 1. Zanettini, Paulo. Os Caminhos de Peabiru: Trilha de Conexões Culturais. São Paulo: Editora Contexto, 2018.

 2. Eller, Rosendo. Arqueologia dos Caminhos de Peabiru. Curitiba: Editora UFPR, 2019.

 3. Souza, Edison Carlos Fernandes de. Peabiru: Mito e Realidade. Londrina: Eduel, 2020.

 4. Fernandes, Antonio. Os Europeus e a Ambição de Dominar as Rotas Indígenas do Peabiru. Rio de Janeiro: Mauad Editora, 2021.

 5. Almeida, Maria de Lourdes. O Caminho de Peabiru e as Relações Interculturais. Florianópolis: EdUFSC, 2021.

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