O ASSASSINATO DE CESÁRIO LUÍS, UM DOS CRIMES MAIS BÁRBAROS DO CEARÁ. (Lagoa do Carnaubal, Viçosa do Ceará). Texto de Deolindo Barreto Lima



 O ASSASSINATO DE CESÁRIO LUÍS, UM DOS CRIMES MAIS BÁRBAROS DO CEARÁ. (Lagoa do Carnaubal, Viçosa do Ceará). Texto de Deolindo Barreto Lima:

"Existe na comarca de Granja um velho matuto, pai de duas moças guapas e faceiras e de três rapazes fortes e maus, cuja educação viciada não lhes permite compreender como se pode pedir justiça aos homens, às leis, a Deus, quando se a pode fazer pela boca de um bacamarte e pela ponta de uma afiada faca. Este matuto casou há dois anos uma das filha em Chaval, ficando a outra em sua companhia e dos irmãos. Há poucos meses, pela sua casa surgiu um menor, tocador de pífano, chamado Cesário, com 17 anos de idade, insinuante e simpático, o que se achou com direito a namoricar os belos olhos negros da guapa e gentil moçoila sertaneja. Um dia, esta, sem se saber como surge desvirginada escondendo no seu semblante desconfiado o crime cujo fruto se vinha desenhando na deformação a todos visível do seu busto escultural, e na sua grande desgraça, a jovem sertaneja teimava em não revelar o autor da sua infelicidade. O pai, os irmãos, recordando a assiduidade do jovem tocador de pífano junto à menina, não tardaram em imputar-lhe a autoria do crime, que constituía então a sua maior vergonha. Uma resolução tremenda penetrou o ânimo do velho sertanejo, que, chamando os três filhos, ordenou-lhes que se pusesse no encalço do Cesário, o pobre tocador de pífano e o matassem. Sabendo antes o infeliz rapaz que lhe culpavam pela desonra da sua namorada, da eleita dos afetos, temendo a ira dos seus parentes, só encontrou uma saída na sua imaginação apavorada – a fuga E fugiu para longe, para as extremas do Piauí, onde se refugiou em casa de um seu padrinho e pai de criação, o velho Clementino Honorato, que lhe servira de educador e pai, pois ficara órfão muito criança ainda. Montados em dois burros possantes e um cavalo magnifico, os três irmãos Basílio, homem de quase 40 anos, coxo, mal encarado, Antonino e Delfino, puseram-se ao encalço do pobre Cesário.
A CAÇA - De poiso em poiso, de pegada em pegada, foram dar em casa do Manoel Guilherme, inimigo figadal do velho Clementino Honorato, pai adotivo de Cesário, que se prestou a ir ensinar-lhes a casa onde se refugiara o moço procurado. As cinco horas da tarde, quando o sol ia desaparecendo por traz dos cerros da Ibiapaba, o velho Clementino e Cesário, acabavam o seu serviço diário no roçado e mortos à fome, demandavam a casa para a primeira refeição do dia, que ainda ia ser cozida. Mal se assentara em uma rede o padrinho de Cesário, mal este se aproximava do fogo para coser o feijão, quando ouviram o tropeço de vários animais e os gritos canibalesco dos cinco cabras, os três irmãos o inimigo do velho Clementino e mais um caboclo Antônio Cardoso que se prestara a auxilia-los para ganhar 20$000! Rifles em punho gritaram aos dois infelizes: - rendam-se ou morrem! O pobre velho mal se refazia do susto e já Cesário era agarrado, amarrado brutal e rijamente, com um cabresto de relho cru, cujas voltas lhe esmagavam os bíceps, tal a violência do aperto com que os comprimiam.
A ODISSEA - Começou então a odisseia do jovem tocador de pífano. Amarrado no rabo de um dos burros da comitiva, aos tropeços nos pedregulhos ou enterrado nos areiases, pelas estradas poeirentas desertas e intermináveis, lá se ia a caravana da maldição, aos berros, aos guinchos, sussurros de raiva e de ódio.
Um grito de dor, uma palavra de suplica, um gesto de perdão do pobre rapaz tudo era respondido com coronhadas dos bacamartes, com chicotadas de relho cru, que retalhavam as carnes, fazendo escorrer sangue do seu corpo todo. E quando, morto de fadiga o infortunado moderava o passo, dois cavalos faziam-no andar a troco de cascos nos calcanhares.
O MARTIRIO - O braços do pobre rapaz comprimidos pelos relhos edemaciaram-se de um modo horroroso, tomando dimensões dantescas. Os pontapés, as pisadelas, as chicotadas já não se contavam; os gritos dolorosos ecoavam pelas quebradas da serra, sem que deles se compadecessem os seus miseráveis agressores. De joelhos, olhos injetados, respiração aos haustos, debalde o pobre moço protestava a sua inocência e suplicava compaixão. Nada demovia a loucura vingativa dos bárbaros sertanejos. E assim, aos trambolhões, Cesário foi arrastado, por cima de pedregulhos e de locas de penhascos; amarrado à cauda de um burro possante; a pedir debalde; a implorar em vão; a misericórdia dos assassinos.
O ASSASSINIO - Lá no alto de um serrote escalvado e ermo existe uma gruta quase desconhecida dos habitantes daquelas ínvias paragens. Antônio Cardoso entretanto; a conhecia muito bem e sabia que ninguém poderia encontrar um cadáver àquelas alturas. E para lá guiou o a patulés sinistra. Como ali não subiam animais, Cesário foi desamarrado da calda do burro e tocado a frente como um réprobo, aos empurrões; aos gritos de morte, aos palavrões imorais; aos insultos ignominiosos aos berros de vingança. Neste instante o sol desaparecia triste e lutuoso por cima da serra entristecida. Ao longe; nas quebradas o silencio da mata era interrompido por um grito de onça amarela e pelos gemidos já sem eco da pobre vitima indefesa da maldade dos cinco bandidos. Afinal; com um esforço hercúleo chegaram ao cimo da montanha à boca da furna; Basílio, o coxo maldito o Quasimodo redivivo; cheio de ódio, sequioso de sangue; gritava para os companheiros para o ajudarem. E os olhos de Cesário foram arrancados um a um, à faca depois, os braços quebrados e as pernas fraturadas a pedra.
Mas o desgraçado, ainda gemia e era preciso mais sofrimento; na imaginação dantesca dos cinco abutres ainda não esmaecera a sede do martírio. E Cesário foi castrado. Ensanguentado, nos regougos dos últimos momentos, o desgraçado jovem parecia ainda resistir; foi quando um tiro de bacamarte quebrou o silencio da noite e transpassou lhe a boca; um segundo tiro, logo após, varou lhe o coração. Mas ainda não foi tudo; a cabeça, entre duas pedras, foi esmigalhada. Então um corpo, rolando de pedra em pedra, aos rebolos, caiu pesadamente no fundo escuro da grande gruta. Os assassinos olharam-se e riram satisfeito. Acabava de ser cometido o crime mais bárbaro, mais odiento, mais dantesco, mais horrível, destes últimos tempos.
O ENCONTRO MACABRO - Dois dias depois o subdelegado de Gorgonha inteligente e arguto, desconfiando da HISTORIA DE FAMILIA pôs-se no rasto dos burros e foi descobrir o corpo do desgraçado rapaz já em estado de putrefação adiantada. Comunicado o fato à polícia de Viçosa, esta se pôs no encalço dos criminosos, constando-nos que já prendeu um dos comparsas.
INOCENTE - Apurado o fato constatou-se que Cesário não fora o autor do defloramento da filha de José Xixico, o sertanejo granjense; ela confessara afinal a autoria como sendo de um seu primo. Agora o serviço está feito não há jeito, disseram os criminosos na sua filosofia de tarados.
Ao encerrarmos a narrativa destes fatos, soubemos que a polícia de Granja pretendeu prender os criminosos e que eles resistiram, falecendo no tiroteio um deles. Não sabemos se esta notícia tem fundamento, nem qual deles foi o morto. Apelamos, no entanto, para as justiças de Granja, Viçosa e Piauí para que este crime nefando não fique impune. Soubemos que o Cel. José Siqueira, delegado de Viçosa não tem dado tréguas aos bandidos, é um belo exemplo que esta autoridade dar aos seus demais colegas, que se devem unir para vingar, com o rigor das nossas leis, o horror deste crime que pede eterna justiça”.
Texto do Jornalista Deolindo Barreto Lima, publicado no Jornal “A LUCTA” de Sobral-CE. Ano X – Ceará – Sobral, 12 de Janeiro de 1924 – Nº 674 / pag.: 2-3. Foto: imagem de ilustração.
Por João Bosco Gaspar, pós-graduado em História, Cultura e Patrimônio, Tianguá Ceará

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