JOCA BERNARDO: O HOMEM QUE DIVIDIU O SERTÃO
Herói para uns, traidor para outros, o nome de Joca Bernardo permanece como uma das maiores controvérsias da história do cangaço.
Por trás da queda de Lampião, em 28 de julho de 1938, no sangrento episódio da Grota do Angico, existe um personagem que raramente aparece nas fotografias, mas que esteve no centro do destino do cangaço: Joca Bernardo. Foi ele quem indicou Pedro de Cândido — o coiteiro que guiou a volante — até o esconderijo do Rei do Cangaço. Sem essa informação, o cerco que matou Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros dificilmente teria ocorrido.
Para o Estado, Joca cumpriu um papel decisivo. Lampião era considerado o maior inimigo da ordem pública no Nordeste. Durante quase vinte anos, desafiou governos, invadiu cidades, humilhou autoridades e expôs a fragilidade do poder oficial no sertão. Sua morte representou o fim de uma era de medo e instabilidade. Sob essa ótica, Joca foi um informante eficaz, alguém que ajudou a restaurar a autoridade do governo onde a polícia sozinha jamais conseguiu chegar.
Mas no sertão, as leis escritas nunca tiveram o mesmo peso das leis da honra.
Lampião, apesar de seus crimes, era visto por muitos sertanejos como um símbolo de resistência contra coronéis, abusos policiais e injustiças sociais. Em regiões esquecidas pelo Estado, o cangaceiro era, para parte da população, uma forma distorcida de justiça. Joca não enfrentou Lampião em combate. Ele conhecia os caminhos, os esconderijos e as rotinas do bando — e entregou tudo isso em segredo.
O resultado foi uma emboscada ao amanhecer, quando os cangaceiros ainda dormiam. Não houve chance de defesa. O ataque terminou com corpos perfurados por balas, mulheres mortas e cabeças decepadas, que depois seriam exibidas como troféus em praças públicas.
Para o sertanejo, isso não foi vitória. Foi traição.
E no código não escrito do Nordeste, trair alguém que lhe deu confiança é uma das piores faltas possíveis.
Joca Bernardo, por isso, nunca encontrou paz na memória popular. Mesmo tendo sido recompensado e protegido, jamais foi celebrado. Seu nome não virou rua, nem praça, nem herói. Virou sussurro. Virou advertência. Virou o símbolo de um homem que escolheu sobreviver à custa da própria honra.
Décadas depois, o sertão ainda discute:
foi Joca Bernardo um herói que ajudou a libertar o Nordeste do cangaço,
ou um traidor que provocou um massacre sem honra?
Talvez a resposta esteja no meio.
Joca foi, acima de tudo, um homem comum, preso entre o medo, a miséria e a violência de um tempo em que viver já era uma guerra. Ao entregar Lampião, ele não apenas mudou a história — ele pagou o preço mais alto que o sertão conhece: o de ser lembrado para sempre como aquele que vendeu uma vida em troca da própria.
Lampião, Cangaço e Nordeste (Facebook)
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