VIDAL DE NEGREIROS: ENTRE A GLÓRIA MILITAR E A REJEIÇÃO DO SANGUE


VIDAL DE NEGREIROS: ENTRE A GLÓRIA MILITAR E A REJEIÇÃO DO SANGUE

A trajetória de André Vidal de Negreiros é emblemática das dinâmicas de ascensão social e recompensas por serviços no Império Português do século XVII. Nascido na Capitania da Paraíba em 1606, Vidal de Negreiros consolidou-se como um dos principais líderes da insurreição pernambucana contra o domínio holandês. Sua atuação militar, iniciada em 1624 na Bahia, culminou em vitórias decisivas nos Montes Guararapes, onde comandou tropas heterogêneas compostas por brancos, indígenas e negros, desempenhando papel central na restauração do domínio português no Nordeste.
Devido aos mais de 20 anos de serviços em “viva guerra”, a Coroa o remunerou com mercês elevadas, tornando-o fidalgo cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador. Sua carreira administrativa foi igualmente vasta, ocupando o governo do Maranhão, de Angola e, por duas vezes, de Pernambuco. Como administrador, acumulou expressivo patrimônio em terras e engenhos. Entretanto, em sua vida privada, embora tenha tido vários filhos, como Matias Vidal de Negreiros, de ascendência africana, André declarou-se solteiro em seu testamento de 1678 e não os reconheceu como herdeiros.
A despeito da omissão paterna, a trajetória de seu filho Matias evidencia a força da “honra acumulativa” no Antigo Regime. Graças aos serviços prestados por Vidal, o rei legitimou Matias, conferindo-lhe nobreza e a posse da fortuna do mestre-de-campo. Contudo, se em Lisboa a norma reinol permitia tal mobilidade, nas colônias a condição racial gerava resistência. Matias enfrentou forte oposição das elites locais em Pernambuco e na Paraíba, que não o aceitavam na chamada “nobreza da terra”. André Vidal faleceu em 3 de fevereiro de 1680, em sua propriedade no Engenho Novo de Goiana, então Capitania de Itamaracá.
Fonte: RAMINELLI, Ronald. Matias Vidal de Negreiros: mulato entre a norma reinol e as práticas ultramarinas. In: Varia Historia, Belo Horizonte, v. 32, n. 60, set./dez. 2016.
Imagem: André Vidal de Negreiros em retrato anônimo (séc. XVII; Museu do Estado de Pernambuco) e em “Batalha dos Guararapes” (V. Meirelles, 1879; Museu Nacional de Belas Artes), com o filho Matias.

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