Hino à amizade, Canção da América completa 45 anos: conheça a história da música.
Composta em 1979 para homenagear um amigo de Bituca, a música marcou a memória de vários brasileiros, que até hoje se emocionam ao lembrar de alguém que seguiu novos rumos. Conheça histórias de pessoas que foram marcadas pela canção.
Por Débora Costa — Belo Horizonte - 20/07/2024
Além de 'Canção da América', a dupla é autora de outras grandes músicas , como 'Travessia' e 'Maria Maria'.
É só ouvir os primeiros acordes de Canção da América, que o coordenador de vendas Peterson Feijolo recorda imediatamente de um momento marcante da vida dele: a mudança para o México, quando tinha 17 anos. Na despedida dos amigos mineiros, ele foi homenageado com essa música, considerada o “hino à amizade”.
"Eu estava de mudança para o México, já que meu pai foi transferido pelo trabalho pra lá. Eu estava há muitos anos em Minas Gerais e já gostava demais do Clube da Esquina, do Milton Nascimento.
E nessa despedida, essa música foi colocada num momento que gerou muita emoção. Eu chorei, alguns amigos também ficaram muito emocionados com a despedida.
Por mais momentâneo que fosse, foi bem intenso, parece que aquela música selou ainda mais o laço da nossa amizade", contou.
A música de Milton Nascimento e Fernando Brant completa 45 anos de lançamento em 2024. Com uma melodia tocante e letra poética, Canção da América fala sobre relações verdadeiras que não são esquecidas, mesmo que o tempo, a distância e mudanças impeçam a convivência diária entre pessoas.
É esse sentimento que aflora quando o contador Carlos Anselmo da Gama escuta a canção. Ele logo pensa na irmã Siomara, já que os dois, há mais de 20 anos, vivem em cidades diferentes: Carlos em BH e ela em São Paulo.
"A gente tem que guardar realmente um amigo do lado esquerdo do peito, exatamente como está escrito na canção. E a amizade que tenho com minha irmã não tem tamanho, foge de qualquer parâmetro que a gente queira definir.
Foi através dela que eu conheci o Milton e toda a obra dele, tudo que ele representa. O legal é que o primeiro show que eu vi do Milton foi com ela e o último também", disse.
A música foi composta por Milton Nascimento em homenagem ao músico sul-africano Ricky Fataar, com quem Bituca conviveu nos Estados Unidos, no final da década de 1970.
O pianista, produtor musical e compositor Kiko Continentino, que tocou com Milton por 25 anos, lembra que o artista sempre gostou de contar a história da canção nos shows.
"É uma música que ele fez para um amigo de Los Angeles, que ele encontrava sempre lá nos Estados Unidos. No começo, Milton não gostava muito de lá, então o amigo mostrou as coisas boas de Los Angeles.
E teve uma vez que Milton chegou na cidade e não encontrou com ele. Foi justamente por isso que ele fez a música e logo depois o Fernando Brant colocou a letra. Essa música tem uma força realmente extraordinária", relatou.
Canção da América marca gerações muito por conta da sintonia entre a melodia e a harmonia da música, como avalia o pianista e comunicador Antonio Vaz Lemes, criador da página "Piano que Toca".
A pedido da CBN, o professor analisou a canção e apontou que a construção harmônica convida a um abraço entre amigos, a criar uma relação forte e, ainda, deixa uma esperança de um reencontro.
"A parte mais tocante da canção, na minha opinião, é esse trecho da melodia e letra 'qualquer dia amigo eu volto pra te encontrar'. Aqui, está cheio de esperança, um dia eu vou te reencontrar. Essa música talvez seja mais importante atualmente do que quando foi escrita, porque é uma lição de temperança também.
É muito fácil ouvir Canção da América hoje, depois de tudo que aconteceu com o mundo, não só no Brasil, ouvi-la com deboche, com a ideia de que esse sentimento puro não existe mais. Mas é bonito a gente se deixar ouvir de maneira desarmada, que a gente vai ficar frente a frente com um sentimento muito precioso, que é o da amizade", avalia.
Se por um lado a música fala de reencontro, Canção da América também ficou associada à dor da perda de um amigo querido, quando o piloto Ayrton Senna morreu em um acidente na Fórmula 1, em 1994. Curiosamente, Senna era muito amigo e fã de Milton Nascimento e Canção da América era uma das suas músicas favoritas.
Esse sentimento de despedida é a principal memória que a pedagoga Maria Terezinha Passos tem quando escuta Canção da América. Ela se lembra de uma amiga da juventude, que morreu há mais de 40 anos.
"Toda vez que escuto vem a imagem da Liliane, que era uma menina cheia de vida, muito estudiosa, uma jovem fazendo medicina e que morreu naquela época com câncer. Por qualquer outro motivo que eu esteja ouvindo Canção da América, me vem a memória dela e daquela convivência boa que tivemos, da juventude tão feliz e que foi podada", disse.
Durante as últimas quatro décadas, Canção da América foi regravada diversas vezes e por vários artistas, entre eles Elis Regina, que era uma das melhores amigas de Milton Nascimento e a primeira cantora da MPB a gravar as composições dele.
Materia da CBN/GLOBO
Na foto, Milton e o Poeta Fernando Brant, autor de grande parte das letras da mineirada.
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