FAMÍLIA E PODER - OS ALENCAR DA REGIÃO DO CARIRI - POR JOÃO BOSCO GASPAR

 


FAMÍLIA E PODER - OS ALENCAR DA REGIÃO DO CARIRI.

“Esta família, herdeira de terras na região do Cariri, traduz com precisa objetividade o que seria uma “família política”. Seus membros se envolveram na maioria dos grandes acontecimentos políticos do período, e sempre houve um Alencar ocupando os mais altos postos de poder na máquina pública provincial, assim como monopolizando o mando na maioria das vilas e fazendas do Cariri cearense. É assim que o viajante George Gardner narra o seu encontro com o famoso clã dos Alencar na vila do Crato:

O vigário [do Crato], então um homem velho de setenta a oitenta anos, era pai de seis filhos naturais, um dos quais [José Martiniano de Alencar], educado para sacerdote, depois se tornou presidente da província e era então senador do Império, conquanto ainda conservasse seu título eclesiástico. Durante minha estada em Crato, veio visitar o pai, trazendo consigo sua amante, que era sua prima, com oito filhos dos dez que ela lhe deu, tendo, além disso, cinco filhos de outra mulher, que falecera ao dar a luz ao sexto. Além do vigário, havia na vila mais três outros sacerdotes, todos com famílias de mulheres com quem conviviam abertamente, sendo uma das mulheres esposa de outro homem.
Podemos ver que o cargo de padre – os do clero profano ou secular – era literalmente uma função pública ligada ao Estado, e nada tinha a ver com o sacerdócio. Os Alencar, assim como os Paula e os Pompeu, se especializaram em usar do sacerdócio como forma de galgar postos de poder institucional no governo da província.
Após se envolverem em dois movimentos sediciosos frustrados – a “Revolução Pernambucana de 1817” e da “Confederação do Equador” de 1824 – os Alencar aderem à legalidade e “após sua escolha como Senador” e, logo depois, “para presidente do Ceará” em Agosto de 1834, “período que teve logar o assassinato jurídico de Pinto Madeira e se installou a Assembléa legislativa provincial” e “de novo para presidente do Ceará em 1840”, José Martiniano de Alencar esteve envolvido diretamente na montagem da máquina pública provincial. “Pela Lei nº 13, de 24 de maio de 1835, sancionada pelo Presidente Alencar, fora criado o Corpo Policial do Ceará, embrião da polícia Militar. Cumpre pois que os officiaes da Guarda Nacional sejão da nomeação do Governo, para mais independente poderem manter a disciplina nos seos subordinados”. Ou seja, a partir da década de 1830, teria início a criação de uma polícia leal ao presidente, e não mais às famílias rurais interioranas. Estava aí germinando um corpo de funcionários públicos minimamente divorciados da parentela, de onde sairiam os homens responsáveis pelo enfrentamento na linha de frente ao poder privado ao longo da segunda metade do século XIX. Neste momento inicial, a ação dos Alencar fora marcante”.
Fonte: Trecho da monografia “FAMÍLIA E PODER: A construção do Estado no noroeste cearense do século XIX”, de Raimundo Alves de Araújo. Imagem: Cidade do Crato, no Vale do Cariri, sul do Estado do Ceará.

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